Comer pombos é hábito antigo
Não é difícil encontrar pessoas que comem ou já provaram carne de pombo, sem se preocupar se as aves tinham doenças ou não. Sobram exemplos em Londrina, onde o provável abate dos pássaros deverá suscitar polêmica sobre o destino da carne.
''De vez em quando a gente pega rolinhas em fazenda e come com uma cervejinha. É uma delícia, o gosto é mais acentuado que o do frango'', diz o caminhoneiro Altamir Balassa, 58 anos. Para ele, será um desperdício se os pombos abatidos na cidade forem descartados. ''Matar eu acho que vai ser preciso mesmo, porque os pombos não têm predadores naturais e vão continuar se reproduzindo. Mas tem que distribuir a carne para o pessoal carente, que passa fome'', opina.
O jardineiro Audriano Lúcio Alves, 51 anos, que não tem o apelido de ''Índio'' à toa, diz que há muito tabu em torno do consumo de carnes e lembra que já comeu pomba, tatu, capivara, cobra, macaco e até onça. ''Tem muitas coisas que a gente come por aí sem saber como foi feito e às vezes são até piores do que as pombinhas. Com cebolinha, salsinha, pimentinha do reino e bem fritinha, eu comeria essas pombas (do Centro de Londrina) sem problema'', garante, apoiado por Balassa.
Segundo o biólogo da coordenação de fauna do Ibama em Brasília, André Deberdt, o consumo de carne de pombo é comum entre comunidades pobres do nordeste do País. Naquela região, ao contrário do que ocorre em Londrina, a luta do governo é justamente para garantir o uso sustentável das aves, que estão desaparecendo. ''A lei de crimes ambientais permite abater animais em casos de miséria extrema. Esse tipo de caça é chamada furtiva ou clandestina, mas não costuma ser questionada porque serve para matar a fome'', esclarece.
No Japão, há criações de pombos devidamente alimentados e vacinados para exportação como alimento, especialmente para a França. Registros históricos apontam que mesmo no Brasil - onde hoje o consumo da ave é tabu - um dos objetivos da introdução dos pombos domésticos, trazidos por imigrantes europeus no século 16, foi justamente o de servir como fonte de proteína. (V.N.)





