Jolcimar Luiz Pes, 28 anos, o Gilsão, será julgado a partir de 9 horas de hoje em Guaíra como único denunciado formal pelo duplo assassinato de Quinto Andreis e seu filho Celso Andreis, ocorrido no dia 10 de julho de 1996. Eles foram mortos a tiros por dois pistoleiros, em crime com características de ter sido encomendado. Quinto e Celso, mortos respectivamente aos 60 e aos 34 anos, eram donos da empresa Mineração Floresta que atuava no transporte fluvial e atua na extração de areia.
As mortes e o julgamento são os fatos de maior repercussão nos últimos anos na região de fronteira com o Paraguai, por causa da influência social, política e econômica exercida pela família Andreis. O transporte entre Paraná e Mato Grosso do Sul sempre gerou agressiva disputa, inclusive judicial, entre a Mineração Floresta e a F. Andreis, empresa de propriedade de outro ramo da família, liderado por Fioravante (irmão de Quinto, já falecido) e seu filho Milton Andreis, 37 anos, hoje o principal diretor.
Os conflitos só foram reduzidos no início do ano com o fim do transporte fluvial entre os dois estados, a partir da inauguração da Ponte Airton Senna. A F. Andreis continua atuando no transporte para o Paraguai. Na época dos crimes, porém, a disputa estava especialmente acirrada, por isso a Polícia investigou a possibilidade de que houvesse ligação entre os fatos. Gilsão, que atuava como barqueiro, é o único preso ao longo do inquérito policial. Ele teria transportado os pistoleiros para executarem a ação e depois na fuga para o Paraguai.
No inquérito, o delegado especial Edu Furtado Filho considerou a possibilidade de que Quinto e Celso estivessem afetando interesses da F. Andreis no rendoso transporte fluvial. Em um dos sete depoimentos que prestou, Gilsão envolveu Milton Andreis e seu amigo Roque da Silveira, 34 anos, filho dos ex-prefeitos Osvaldino e Ada Silveira. Uma testemunha disse ter visto os pistoleiros na casa de Roque dois dias antes dos crimes. Outra teria ouvido Milton dizer que poderia promover retaliações a Quinto e Celso, por causa da disputa comercial.
Segundo o delegado, Gilsão teria recebido dinheiro de um preposto de Roque para transportar os pistoleiros em uma embarcação até um porto, de onde chegaram à casa de Quinto e Celso de motocicleta, chamando-os para fora e executando-os. O preso, que prestou depoimentos sempre contraditórios, inicialmente havia dito ter sido contratado por dois desconhecidos apenas para mostrar-lhes a cidade. Depois, disse que os conduziu pelo rio para executar os crimes, mas só teria sabido disto quando eles voltaram para fugir para o Paraguai.
Milton Andreis e Roque da Silveira sempre negaram qualquer envolvimento. Eles chegaram a ser indiciados no inquérito, mas não foram denunciados à Justiça pelo Ministério Público por falta de provas. Os herdeiros de Quinto Andreis têm evitado declarações. Recentemente, expediram nota por fax da Mineração Floresta, mas sem assinatura, manifestando a expectativa de que autores e mandantes do crime ainda sejam punidos, e observando que a ‘‘morosidade na solução dos crimes causa constrangimento à Secretaria de Segurança Pública’’.
O advogado Aparecido Martins, da Mineração Floresta, interlocutor dos herdeiros e que será assistente de acusação no julgamento, diz que a família não aceita que o caso ‘‘caia no esquecimento sem que todos os culpados sejam punidos’’. O julgamento pode demorar mais de um dia. O processo tem mais de 800 páginas e foram arroladas 19 testemunhas de defesa e acusação.
O Tribunal do Júri será presidido pelo juiz Mauro Ticianelli, os promotores de acusação serão Laércio Januário de Almeida e Robertson Fonseca de Azevedo, e a defesa será feita pelos advogados Carlos Alberto Disenha, de Curitiba, e Luiz Claudio Lourenço, de Guaíra. Ontem, havia a informação de que estariam no Fórum os quatro filhos de Quinto. A viúva, Tercília Andreis, não havia decidido se acompanharia o julgamento.

mockup