O processo de favelização na Região Metropolitana de Curitiba está provocando mudanças nas políticas habitacionais nos arredores da capital. Um estudo da Coordenação da RMC (Comec), vinculada à Secretaria Estadual do Planejamento, concluiu que os municípios a Oeste e ao Sul da principal cidade paranaense serão as alternativas viáveis de moradia na próxima década.
Fazenda Rio Grande, Araucária, Campo Largo e São José dos Pinhais são as cidades que mais se enquadram na proposta de redirecionamento urbano. ‘‘Estes municípios não estão dentro das áreas de proteção de manancial e além disso passam por um processo de crescimento econômico’’, afirma a diretora técnica da Comec, Zulma Schussel.
Segundo o presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), Luiz Hayakawa, o perfil geográfico dos municípios estudados pela Comec tornará viável a tese de mudar o crescimento demográfico de região. ‘‘A região sul dispõe de uma topografia favorável, pois tem áreas mais planas’’, observa.
Aliado ao fator localização, a Comec quer trazer os novos moradores para perto de áreas com maior número de equipamentos sociais, como escolas, creches e postos de saúde. Os setores Sul e Oeste da RMC, diz Hayakawa, apresentam estas qualidades. De acordo com Zulma Schussel, a região Leste, por exemplo, está cercada por mananciais, portanto, considerada como área de preservação ambiental e imprópria para ocupação.
‘‘Na região Norte existem muitos declives acentuados, além dos estudos sobre a extração de água do subsolo através do aquífero Karst’’, acrescenta Zulma. Municípios como Piraquara e Campina Grande do Sul, por exemplo, já não são enquadrados como áreas que podem receber novos moradores. A média de crescimento populacional das duas cidades foi de 10% ao ano entre 1991 a 96, conforme dados obtidos pela Comec no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Lote clandestino - O salto meteórico de ocupação sofrida em Piraquara e Campina Grande do Sul é justificado pelas aberturas de loteamentos clandestinos. ‘‘Aqui é invasão, ninguém paga nada. É uma região sofrida’’, anuncia o agricultor aposentado João Luiz de Moraes, 78 anos, que perdeu as terras que possuía em Cascavel por causa de dívidas contraídas para financiar a lavoura.
João reside no Jardim Tarumã II, um área de invasão que fica às margens da estrada PR-415, que liga Pinhais à Piraquara. Graças à aposentadoria de R$ 130,00 que recebe, a ajuda dos filhos e os biscates que realiza para limpar terrenos dos vizinhos, o ex-agricultor está trocando a casa de madeira por uma de alvenaria.
Isso não chega a representar avanço significativo em qualidade de vida, já que a água consumida é captada em poços artesianos, a luz vem de ligações clandestinas e o esgoto se resume a uma vala a céu aberto em frente a sua casa. ‘‘O valor de mercado destas áreas caiu muito, o terreno virou um ônus para o proprietário que deixou a área abandonada, facilitando a ocupação’’, afirma Zulma Schussel, referindo-se a proliferação das favelas.
O complexo da qual faz parte o Jardim Tarumã II, onde mora o ex-agricultor João Luiz de Moraes, é chamado de Vila Guarituba. Lá residem pelo menos 2.000 famílias oriundas principalmente do interior do Estado.

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