Uma pena que o público do I Congresso Paranaense de Criminologia, encerrado ontem em Londrina, tenha sido essencialmente formado por estudantes e profissionais das áreas de justiça e segurança pública. Pois a mensagem principal que se pode tirar do evento é justamente a de que o problema da criminalidade vai muito além dessas duas instâncias.
As idéias expostas por diversos especialistas chamam a classe política a assumir seu papel na segurança pública e incitam a sociedade a uma mudança de mentalidade. ''Nossa classe política perdeu sua importância na mediação social e tenta convencer a população de que ainda tem algo a fazer por ela, vendendo ilusões jurídicas e de segurança frente o crime. Está deixando o poder que tinha nas mãos de policiais, das forças de segurança, quando deveria garantir a segurança através de políticas de pleno emprego, educação, alimentação, saúde'', alertou em entrevista à Folha o professor argentino Luis Fernando NiÀo, especialista em criminologia e autor da última palestra do congresso.
Declarações como essa mostram que o relatório final com as principais conclusões tiradas do congresso, que será entregue à Secretaria de Estado de Segurança Pública, deveria chegar aos mãos de representantes de todas as esferas políticas e governantes em geral. ''Estamos apresentando uma nova proposta ante à criminalidade. Pode não ser perfeita, mas pelo menos é algo para tentar sair de um caminho que nós sabemos que não está dando certo'', assinalou o coordenador do evento, advogado e professor Walter Barbosa Bittar.
Para o coordenador, o Estado brasileiro trabalha apenas com o fenômeno criminal imediato e, sem políticas de médio e longo prazo, acaba trilhando o caminho financeiramente mais caro.''É preciso pensar diferente. Que política habitacional, por exemplo, é política de segurança pública. Que não é com o endurecimento da lei que se resolve os problemas, é com distribuição de oportunidades de moradia, com a construção de uma sociedade mais fraterna'', defende.
Para Bittar e NiÀo, insistindo no discurso da ''lei e ordem'' a classe política acirra o ódio da sociedade em relação aos criminosos, atitude que acaba se voltando contra ela mesma. Também contribui para isso a imprensa que expõe ocorrências policiais, na maioria das vezes, sem espaço para as raízes do problema. ''Isso desperta os instintos mais primitivos da opinião pública'', afirma o especialista argentino.
Quando questionados se a miséria é fator preponderante para o crime, os dois professores discordaram. ''Não é. A Índia é um país muito pobre e tem baixos índices de criminalidade. O que vemos é que cada vez mais as classes abastadas vêm fazendo parte das páginas policiais, e não só por crimes de colarinho branco, mas por tráfico, roubos, até por furto de toca-cd'', sustentou Bittar. ''A criminalidade é um fenômeno da humanidade, do individualismo, da destruição das famílias e dos casamentos, do egoísmo que domina o mundo. Hoje o que se joga na mídia é o hedonismo, o prazer, a matéria'', concluiu.
NiÀo faz côro à opinião sobre o consumismo, mas ressalta que os cidadãos que não têm sequer suas necessidades mais básicas atendidas estão, sim, propensos à criminalidade. ''Muitos usam o exemplo de pessoas que cresceram na miséria, mas conseguiram vencer na vida com trabalho. É um argumento muito pobre. Se a pessoa está muito marginalizada econômica, social e culturalmente, se está passando fome e necessidade, não posso pedir a ela que tenha essa dose de heroísmo cívico e que se mantenha na lei, enquanto essa lei se mantém injusta na classe social''.

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