Capacitar e sensibilizar os profissionais dos hospitais para que saibam reconhecer possíveis casos de violência sofridos pelos pacientes que procuram atendimento pode ser um grande passo para o enfrentamento do problema. Ao contrário da violência urbana, que deixa marcas aparentes, a violência praticada contra mulheres, crianças e idosos ainda é cercada de tabu e não raro é encoberta pela família ou mesmo pelas vítimas. No ano passado, 229 casos de violência foram atendidos na Santa Casa, Mater Dei e Hospital Infantil, unidades que fazem parte da Irmandade Santa Casa de Londrina (Iscal), mas os profissionais reconhecem que esse número pode ser maior porque muitos pacientes recebem alta sem que os casos sejam notificados.
Dados da Iscal mostram que nos últimos dois anos alguns tipos de violência tiveram queda no número de notificações. O grupo do adolescente baixou de 16 casos notificados em 2014 para cinco no ano seguinte e o grupo da família caiu de três para zero no mesmo período. Não houve notificações de violência sexual em 2014 e em 2105. Já os casos de violência contra a criança subiram de um para três de um ano para outro. No total, as notificações diminuíram de 232 em 2014 para 229 em 2015. Para os profissionais da Iscal, no entanto, a redução das estatísticas não significa queda na violência, mas dificuldade no processo de notificação.
"Às vezes o paciente chega ao pronto-socorro queixando-se de um determinado problema, como dor de cabeça, por exemplo, mas depois da internação é que a verdadeira causa aparece. Ou então, chegam pacientes com dores que não têm nome. Por isso é preciso um olhar diferenciado dos profissionais para o acolhimento desse paciente", observou a assistente social do Hospital Infantil e Mater Dei Melissa Fernanda Benício Faria. "Há casos em que o ferimento não condiz com a causa apontada pelo paciente e também há os casos de reincidência", ressaltou a assistente social da Santa Casa Erika Nunes Moreno.
Desde julho de 2015 funciona na Iscal o Núcleo de Atendimento Intra-hospitalar à Vítima de Violência, formado por uma equipe multidisciplinar da qual fazem parte assistentes sociais, enfermeiros, psicólogas e gerentes da instituição. O núcleo foi criado com o objetivo de reverter as possíveis não notificações e encaminhar o paciente ao atendimento adequado. "Em uma suspeita, a gente sempre vai notificar. Não cabe a nós investigar o caso, mas quando a luz vermelha acende, fazemos a notificação. E entendemos que todos os profissionais do hospital são importantes nesse reconhecimento, desde a copeira até o médico", disse Melissa Faria.
Feita a notificação, os casos são reportados à rede municipal de enfrentamento à violência, que tem integrantes de entidades como a Polícia Militar, Ministério Público, Conselho Tutelar e hospitais. Quando o paciente reside em outra cidade, os casos são encaminhados aos serviços públicos disponíveis no município de origem.
Desde 2011, as unidades de saúde são obrigadas a fornecer os dados que irão alimentar o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). O sistema recebe as notificações de doenças e agravos e os casos sob investigação e permite diagnosticar as ocorrências com maior rapidez, ajuda a definir as causas do problema e contribui para a tomada de decisões. Em Londrina, quem recebe os dados é o Núcleo de Vigilância Epidemiológica. "É um banco oficial. Por esse banco a gente pode extrair as informações para orientar as políticas públicas. E não são dados apenas quantitativos. As informações são divididas por tipos de violência, sexo, região geográfica", explicou Cristiana Castello Branco Nascimento, que integra a equipe de coordenação de Ações em Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde.
Cristiana ressalta que embora o maior volume de dados seja repassado pelos hospitais, eles são apenas um dos notificadores, mas órgãos como os centros regionais de assistência social (Cras), os centros de referência especializado em assistência social (Creas) e as unidades básicas de saúde também registram os casos de violência notificados nas regiões em que atuam.

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