Imagine um vestibular às avessas, onde parte dos selecionados não faz questão da vaga adquirida? É assim, anualmente, no processo de alistamento do serviço militar. Este ano, em Londrina, cerca de 4.200 jovens de 18 anos se inscreveram obrigatoriamente, mas apenas 200 deles serão incoporados ao Tiro de Guerra (TG) local.
O serviço é realizado como preparatório para uma Guarda Territorial em caso de guerra. ''O TG vai defender Londrina numa situação de combate. Vai garantir que as coisas fiquem em ordem para que a cidade funcione. Os rapazes não vão para a linha de frente'', explica o tenente Antônio Carlos dos Reis Pereira, que é o delegado do TG local. Ele é o responsável, entre outras atribuições, por comandar o processo de seleção dos alistados.
Uma vez dentro, os jovens devem, diariamente - com exceção dos domingos em que não estão de plantão -, estar na sede do Tiro de Guerra às 5 horas da manhã em ponto. Durante duas horas executarão tarefas típicas dos militares - como marchar, por exemplo -, farão exercícios físicos e aprenderão sobre respeito e hierarquia. ''Vão aprender, de março a dezembro, a conviver como se estivessem em um quartel'', resume o sargento Fabiano Francisco de Oliveira, que responde pelo TG em Londrina.
O atirador - como são chamados os rapazes - Willyan Robson Sisti Botano, de 18 anos, gosta de participar do serviço militar. ''Eu sou um dos voluntários. Pedi para participar porque admirava as histórias que meu pai contava de quando era do Exército'', explica. Ele conta que muitos colegas se espantam pela opção que fez. ''Muitos falam: eu aqui querendo correr do Tiro e você pedindo para entrar'', se diverte.
Aliás, pedidos de incorporação aos TG não faltam. Seja de garotos ou dos pais deles. ''De todos que se alistam, quase 50% são voluntários e querem seguir carreira, seja no Exército, Aeronáutica ou Marinha. É a chance de ter salário, primeiro emprego'', revela o tenente Reis. Ele afirma ainda que muitos pais pedem para que os filhos entrem. ''Não tem como, porque é o sistema que vai definir algumas coisas'', explica.
O estudante de Biomedicina, João Renato Pesarini, de 18 anos, torcia para o sistema não selecioná-lo, na semana passada, quando foi feita a escolha para a turma do próximo ano. ''Eu não gostaria de fazer porque já consegui um estágio no primeiro ano da faculdade, o que é difícil. Mas se for selecionado, eu faço'', afirma, sem muita convicção. Mesmo sem querer prestar, ele reconhece a importância do serviço militar e diz que poderia ser utilizado em situações de conflito interno no País.
Outro estudante, Alexandre Perez Giufrida, de 19 anos, também não queria ser selecionado, mas foi. Há seis meses acorda todo dias às 4h15. ''No começo foi difícil, mas a gente acaba acostumando. A parte física não é tão ruim e gostei de participar de algumas missões, como a de arrecadar alimentos e agasalhos'', conta.
Outros dois colegas de Giufrida, que preferiram não se identificar, revelaram que algumas atividades são mais puxadas. ''Quando alguém faz algo errado, todo mundo paga, seja com flexões, exercícios na lama ou coisas assim'', segredam. Mas um deles logo ressalta. ''Apesar de ter sido ruim no começo, hoje a gente gosta. Vamos levar grande amizades daqui'', diz, em tom saudosista.
O sargento Fabiano explica que, como uma das premissas do serviço militar é a disciplina, quando algum jovem foge da regra ele é punido, seja com exercícios, plantões extras ou até faxinas. ''Se ele ultrapassar um limite, será retirado do serviço e terá que fazê-lo de novo no próximo ano'', acrescenta.

mockup