Lúcio Horta
De Londrina
O Paraná pode estar entrando no mapa do crime organizado brasileiro. Um grupo autodenominado ‘‘Primeiro Comando do Paranᒒ começou a ser articulado dentro das penitenciárias do Estado, a partir da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), e promete uma ‘‘revolução nos corações e mentes’’ da sociedade paranaense. Essa revolução, segundo definição do próprio grupo, ocorreria contra a repressão e os maus-tratos a que são submetidos a maioria dos detentos do País.
Os objetivos do comando estão descritos num estatuto apreendido durante uma revista na PEL. Ontem, a direção da penitenciária não quis se manifestar sobre o assunto e pediu que a questão fosse tratada diretamente com a Secretaria de Estado da Justiça. A informação, no entanto, foi confirmada pelo juiz-corregedor dos presídios Roberto do Valle, e da Vara de Execuções Penais (VEP) de Londrina, e pela diretora do Fórum, Lídia Maejima (ver texto nesta página).
O estatuto, escrito à mão, tem 16 itens e teria sido criado a partir de experiências do comando de São Paulo e do Comando Vermelho, do Rio de Janeiro. Alguns desses itens são estarrecedores, como o que prevê pena de morte ao preso que não colaborar com a organização. A determinação, segundo o ‘‘documento’’, fala em execução sumária, tanto para quem está detido quanto para quem já foi liberado pela Justiça.
O estatuto também prevê ações de resgate em penitenciárias e até sequestros de autoridades para pedir libertação de presos. O texto prega que os presos são ‘‘irmãos’’ e devem ter uma relação de ‘‘respeito’’ e ‘‘lealdade’’. Por isso, detentos que saírem das penitenciárias deverão estar à disposição do comando, inclusive prestando ajuda financeira, comprando cestas básicas ou contratando advogados para as famílias de colegas que estejam em dificuldades.
De acordo com o texto, a organização deve ter uma ação mais intensa em presídios como os de Londrina e de Maringá, onde o sistema de segurança é mais rígido. Motivo: a repressão estimularia a união dos detentos. Já em Curitiba, onde existem mais regalias, segundo o documento, a penetração da organização tende a ser mais difícil.
A Folha apurou que dois dos principais organizadores do comando seriam os detentos ‘‘Bandejão’’ e ‘‘Misael’’, ambos de São Paulo e que cumprem pena no Paraná. O segundo foi transferido para Curitiba pelo Departamento Penitenciário (Depen) do Estado no mês passado, depois de liderar um motim na PEL.
O secretário Estadual de Justiça, José Tavares, disse ontem, através da assessoria de imprensa, que está aguardando um comunicado oficial sobre o caso para depois se manifestar. A assessoria também informou que a Secretaria já pediu ao Departamento Penitenciário de São Paulo a transferência de Misael e Bandejão para aquele Estado.

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