Hoje, aos 25 anos, o trabalhador da construção civil, Sérgio Figueiredo dos Santos, tem o prazer de poder escutar ''até os passarinhos cantando'', como ele mesmo diz. Durante 17 anos, ele carregou uma pedrinha no ouvido esquerdo, que lhe causou uma falha auditiva desde os 8. E essa história inusitada começou com uma simples brincadeira de criança, em um depósito de areia em Cambé (Norte).
Sérgio conta que entre as brincadeiras com os amigos havia uma competição de quem conseguia esconder mais pedrinhas no ouvido. ''Só que no meu caso uma ficou. Aí tentei tirar com a ajuda de um palito de fósforo e acabei empurrando-a para dentro'', lembra ele, que ao chegar em casa não teve coragem para contar aos pais. ''Tinha certeza que ia apanhar porque eles eram muito bravos. Resolvi ficar quieto'', conta.
Durante todo esse tempo, Sérgio diz que sentia uma leve coceira e uma falha na audição, mas revela que nunca havia procurado um médico. ''Achava que ia ter que fazer uma cirurgia para tirar e fiquei com medo. O tempo foi passando e até cheguei a esquecer dela'', diz.
A solução para o problema de Sérgio só chegou quando ele passou por um exame periódico da empresa. O médico Alair Bebert, do setor de Medicina Ocupacional do Serviço Social do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Norte do Paraná (Seconci), conta que um teste de audiometria acusou que havia algo de estranho.
''Notei que havia uma perda auditiva e, após uma conversa, ele contou sobre o episódio. Na hora o encaminhei para um especialista, que acabou descobrindo a pedrinha. Esse é um caso muito inusitado'', comenta o médico.
Hoje, Sérgio conta sua história com muito bom humor e diz ter descoberto uma nova alegria: a de poder escutar música e televisão, sem precisar estar no último volume.
Espuma e baterias
A médica otorrinolaringologista Cláudia Vaz conta que no pronto-socorro de pediatria é comum atender de duas a três crianças por semana, com algum corpo estranho no ouvido ou nariz. ''Já tirei espuma, rodinha de carrinho, colar de pérola, bijouteria, tarrachinha de brinco, massinha e até baterias, mas pedra é incomum'', diz ela, ao comentar que o caso de Sérgio é um episódio raro. ''Nunca tinha visto alguém conviver tantos anos com um objeto no ouvido, até porque é uma região muito sensível e dificilmente não haverá incômodo'', afirma.
Sobre as consequências desse ato, a especialista explica que o mais comum é acontecer uma escoriação no conduto, que pode provocar um sangramento e resultar em uma infecção. ''Mas já vi casos em que o objeto foi introduzido profundamente e lesionou o tímpado. Aí sim, a situação se agrava, pois pode causar a perda auditiva'', comenta. Além disso, o quadro também pode avançar para uma necrose, caso os objetos contenham susbtâncias químicas, como pilhas e baterias.

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