O pescador Júlio Francisco Daniel não entende só de peixe; ele é um dos maiores entendidos em barcos de pesca do Norte do Paraná. Julinho, como é conhecido, tem 67 anos e mora em Jataizinho. Em 1984, ele deixou de ser açougueiro e resolveu virar pescador. Além de lançar as redes nas águas do Rio Tibagi, passou a observar a forma dos barcos utilizados pelos pescadores. Logo começou a fabricar embarcações de madeira. Já fez mais de 60. Quem também é apaixonado por barcos é o aposentado Francisco Cantão, 76 anos, que aprendeu sozinho, há mais de 15 anos, a construir embarcações de madeira.
Júlio Daniel é presidente da Colônia de Pescadores de Jataizinho e sua fama de bom construtor de barcos se espalhou. Está terminando um e já tem outras três encomendas para entregar nas próximas semanas. ''A pesca e a construção de barcos me ajudaram a criar meus cinco filhos'', diz, com orgulho.
A facilidade em construir barcos - ele consegue fazer um de mais de cinco metros em apenas dois dias - é atribuída aos conhecimentos de marcenaria que ele adquiriu do pai, que era carpinteiro. ''Os barcos que nós utilizamos são muito simples, mas são ferramentas de trabalho preciosas. Um pescador sem barco não sobrevive. Para fazê-los eu utilizo cinco tábuas de pinus e também um compensado marítimo feito de cedro'', explica.
E pelas histórias que Julinho conta, a identificação dos pescadores com suas embarcações realmente é grande. ''Muitas vezes dormimos dentro do barco, principalmente quando chove muito e fica impossível voltar para o acampamento. Fixamos bambus na proa e na popa e jogamos uma lona por cima, o barco fica igual a uma barraca. É uma delícia''.
Os pescadores de Jataizinho passam boa parte de suas vidas dentro dos barcos. Com a pesca fechada nos rios de corredeira do Estado, como é o caso do Tibagi, por tempo indeterminado, eles são obrigados a percorrer, por dentro da água, onze quilômetros até onde o rio deságua na Represa Capivara, lá a pesca estará liberada a partir de 1º de março, quando termina a piracema.
''Não é fácil. Não podemos ir e voltar todos os dias, por isso, em tempos de pesca liberada, saímos daqui na segunda e só retornamos na sexta-feira. No fim de semana o pescador mata a saudade da família, vende seus peixes e descansa antes de voltar para o barco novamente'', resume Julinho.
Cantão disse que depois que fez o primeiro barco nunca mais lhe faltaram encomendas. Porémm, as máquinas de sua ''fábrica'', que funciona no quintal da casa onde ele mora, estão paradas, pois já não se acha para comprar o timburi, madeira que ele considera ideal para construir os barcos.
''Muita gente me procura querendo um barco, porém eu peço ao freguês que traga a madeira, então o pessoal desiste, pois já não se acha o timburi para vender em Londrina'', explica Cantão.
Quando convidado a responder com quantos paus se faz uma canoa, ele é simples e objetivo. ''A canoa verdadeira é feita pelos índios, com apenas um pau. No caso dos barcos que eu faço, são necessárias quatro tábuas, duas para o fundo e uma para cada lateral'', explica.
Segundo Cantão, os barcos de madeira podem ter entre três e sete metros de comprimento. Para fazer um dos maiores, são necessários 28 metros de madeira, 500 parafusos, impermeabilizante e tinta. O aposentado garante que seus barcos são de alta qualidade, mesmo sem ter nenhum projeto para construção. ''Atualmente eu considero moleza fazer um barco, tenho tudo na idéia'', relata. Sobre o preço do barco de madeira, ele diz que compensa - um de sete metros sai por aproximadamente R$ 700,00, incluindo o material e a mão-de-obra.

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