Com medo, família assiste a
vida do povoado por uma janela
Incentivados pelo regime militar que governava o Brasil no início da década de 70, agricultores paranaenses, vítimas do fim do ciclo de ouro do café e da então crescente concentração fundiária, escolheram o Paraguai para reconstruir a vida e sonhar com a riqueza agrícola.
Pelo menos uma centena deles atravessou o Rio Paraná na altura de Santa Helena (oeste) e se estabeleceu em uma colônia em Puerto Índio, no município de Mbáracayu.
O progresso que prometeu chegar duas décadas depois com a abertura de uma estrada que desde 1994 liga a localidade a rodovia Supercarretera, que atravessa o leste do Paraguai no sentido norte-sul, trouxe apenas outra leva de excluídos, os campesinos.
‘‘Eles vieram para especular com a terra. Não tinham e não tem nada a perder’’, interpreta Jaime Nascimento, 29 anos, 24 deles vividos na localidade. Desde julho, quando voltou de um ‘‘exílio’’ de um mês em Santa Helena provocado por constantes ameaças dos campesinos, Nascimento assiste a pacatíssima vida do povoado pela janela de sua pequena casa de madeira, onde antes funcionava um açougue improvisado.
Com medo dos paraguaios que, segundo ele, ficaram ainda mais agressivos e se armaram até os dentes com o assassinato de um campesino (crime atribuído aos brasileiros), Nascimento fica atento a cada nuvem de poeira erguida pela passagem de alguma caminhonete ou quando ouve burburinhos em guarani, língua usual dos novos moradores da região.
‘‘Nossa família derrubou muito mato. Atravessamos o Paranazão a remo, subíamos e descíamos o barranco com saco de mantimentos que íamos comprar em Santa Helena. Era muito sofrimento, mas a gente tinha esperança que isto daqui ia prosperar’’, conta.
O primeiro golpe contra a ambição de Nascimento foi o alagamento de parte de suas terras com as águas do Lago de Itaipu. ‘‘Minha indenização foi uma mixaria, não deu para nada’’, recorda. Há oito anos, Nascimento casou com Adriana, que desembarcou no Paraguai no colo da mãe. Ele não sabe como alimentará os dois filhos paraguaios sem ter acesso a sua propriedade de 12 hectares, onde plantava soja. A área não é cultivada desde o início do ano, quando 10 famílias de campesinos se estabeleceram no local.
‘‘Eles não fazem nada com a terra. Estão lá para conseguir a escritura e vendê-la depois’’, acusa Denise Meazza Gajoso, 24 anos, irmã de Jaime que nasceu em Puerto Índio.
‘‘Os campesinos só vieram para cá por causa da estrada. Eles querem aproveitar o porto para transformar isto aqui em um centro de compras para brasileiros’’, teoriza Jaime. A reportagem da Folha informa à família que acaba de ser concluída uma reunião envolvendo representantes do IBR, um grupo de policiais chefiado pelo temido comandante da 4ª Zona da Policia Nacional, Miguel Nuñes Vaz, e os campesinos.
O objetivo do encontro – realizado em clima amistoso na tarde da última terça-feira, regado a tererê (bebida a base de erva mate consumida gelada) e a uma farta churrascada – era o de acalmar os campesinos (que exigem a apuração dos culpados pelo morte de dois companheiros) e também prepará-los para o censo. ‘‘Eles estão todos unidos contra nós, nem nos ouvem, como vou acreditar neste censo?’’, afirma Jaime Nascimento. (L.F.M.)

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