Londrina

César Augusto‘Não existem ônibus adaptados; precisamos usar Kombi da associação para ir ao médico’
Aparecida Ruela, 47 anos, vice-presidente da AdefilHoje é Dia Nacional de Luta dos Portadores de Deficiência Física. A Associação dos Deficientes Físicos de Londrina (Adefil) aproveita a ocasião para cobrar sensibilidade dos empresários e autoridades locais. A maior luta da Adefil é eliminar as barreiras arquitetônicas que tanto atrapalham a vida dos deficientes, principalmente aqueles que se locomovem por cadeiras de roda.
As barreiras são muitas. Mas os locais que oferecem algum tipo de acesso para os deficientes são poucos, como o Shopping Catuaí e algumas agências bancárias. A grande maioria das calçadas de Londrina é irregular e as poucas rampas que existem, mal feitas, dificultando a passagem principalmente dos cadeirantes, como lembra a vice-presidente da Adefil, Aparecida Ruela, 47 anos.
Ela reclama que os cinemas da Cidade não oferecem acesso, assim como a maioria dos estabelecimentos comerciais e até mesmo órgãos públicos. Aparecida conta que, recentemente, um grupo de deficientes precisou ir até a Delegacia da Polícia Civil responsável pelo setor de identificação, no calçadão da Praça Willie Davids (centro). Não puderam entrar. Eles se depararam com uma grande escadaria e a solução encontrada foi trazer os funcionários da delegacia para baixo.
‘É muito difícil ficar sem poder andar direito. Fico só pensando nos problemas dos deficientes’
Margarida da Silva, que ficará oito dias com gesso
Telefones públicos são altos demais. ‘‘Nós conseguimos teclar o número, mas não colocar a ficha’’, reclama a tesoureira da Associação, Nilma Ruth de Oliveira, 29 anos. O transporte coletivo urbano também é outro martírio para os deficientes, principalmente no caso dos cadeirantes. Aparecida lembra que não existem ônibus adaptados e conta que os cadeirantes só podem contar com a kombi da Adefil, que os leva a dentistas, médicos, sessões de fisioterapia e ginástica. ‘‘Mas, como são muitos, a gente tem que agendar com bastante antecedência.’’
A doméstica Margarida de Fátima da Silva, 26 anos, vive desde segunda-feira o drama da imobilização. Devido a um problema no joelho, consequência de um tombo, ela vai ter que ficar oito dias com a perna engessada e 10 dias afastada do trabalho. ‘‘É muito difícil ficar engessada, sem poder andar direito. Fico só pensando nos problemas que os deficientes físicos têm para viver’’, comenta.
Margarida da Silva mora no conjunto Mister Thomas (zona leste) e na quinta-feira resolveu ir ao centro de carro. ‘‘De ônibus não dá mesmo’’. Em uma das lojas, a grande dificuldade: uma escadaria até chegar ao caixa. Para atravessar as ruas, outro problema. Os motoristas ficam impacientes com as pessoas que têm dificuldades para cruzar a via. ‘‘A gente tem que tomar muito cuidado.’’
Nestes dias, Margarida da Silva também começou a prestar mais atenção nas calçadas esburacadas da Cidade. ‘‘Se a gente pisa em um buraco, a outra perna perde o equilíbrio e é perigoso cair’’. Ela conta que a filha, de cinco anos, já pensou em contratar uma babá para a mãe.
O acidente foi simples e, no início, a mulher não deu muita importância. Mas trinta dias depois, Margarida começou a sentir dores nos joelhos e procurou um médico. A alternativa foi a imobilização da perna inteira, para não forçar o joelho.
Luzia Terezinha Fante Soares, 40 anos, é uma das poucas cadeirantes em Londrina que não deixa de sair de casa por causa da falta de um ônibus adaptado. Quase que diariamente, ela vai até o ponto mais próximo da sua casa, no jardim Higienópolis (centro de Londrina) e espera pacientemente por um motorista que pare o veículo para transportá-la. ‘‘Tem motorista que me leva e tem outros que não’’, conta. O problema é que, na falta de um acompanhante, é o motorista que precisa carregar Luzia Soares para dentro do ônibus e desarmar a cadeira de rodas.
O motorista Ramon Alvarenga Filho, da Grande Londrina, diz que não se importa em descer do ônibus para carregar Luzia Soares. Mas se preocupa em abandonar o veículo por alguns minutos, principalmente porque o ponto onde ela costuma esperar pelo transporte está localizado em uma rua íngreme. ‘‘E se o freio falhar e o ônibus descer?’’
‘‘Já está na hora de Londrina ter pelo menos um ônibus adaptado para cadeirantes em cada linha’’, reclama Luzia Soares. A gente até adequaria os nossos compromissos para o horário em que o carro passasse.’’ Ela justifica que precisa do transporte coletivo para ver o filho, de dois anos e meio, que mora com o pai no jardim Califórnia (zona leste). A cadeirante trabalhou em uma loja durante sete anos e lembra que já perdeu muitos empregos porque não havia acesso ao local de trabalho.
Foram essas dificuldades que levaram a diretoria da Adefil a lançar neste final de semana a campanha Livre Acesso. Com o slogan ‘‘Independência é bom e eu quero’’, a associação pretende despertar a consciência de todos os cidadãos para eliminação de barreiras arquitetônicas na cidade de Londrina, além de esclarecer sobre a deficiência física.
Os organizadores dizem que a campanha surge da necessidade de uma vida independente para as pessoas portadoras de deficiências físicas - paraplegia, tetraplegia, hemiplegia, amputações, má formação congênita. Eles lembram que as barreiras arquitetônicas privam tanto as pessoas portadoras de deficiência física quanto aquelas com problemas temporários de locomoção - idosos, obesos, gestantes, convalescentes - de participar ativamente da vida cultural, social, econômica e política da comunidade.
Com a campanha, a Adefil espera mostrar aos empresários e comerciantes que eles poderiam aumentar em cerca de 25% o movimento de suas lojas, restaurantes, bares e cinemas, caso se preocupassem em facilitar o acesso aos deficientes físicos. Para justificar este número os organizadores da campanha se basearam no Manual de Mídia e Deficiência, publicado em 1994 pela Coordenadoria Nacional Para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. O documento diz que a distribuição de diferentes formas de deficiência estimada pela Organização Mundial da Saúde (ONU) apontou um percentual de 2% de pessoas portadoras de deficiência física no Brasil, o que indica aproximadamente três milhões de pessoas.
Fazendo a estimativa para a cidade de Londrina, que possui cerca de 400 mil habitantes, a Adefil calcula uma média de oito mil pessoas portadoras de deficiência física. A proporção chegará a 25% levando em conta o número de amigos e familiares dos deficientes que deixam de ir ao cinema, teatro ou restaurante que não têm acesso facilitado.
Todas as atividades da campanha estão sendo realizadas no Shopping Catuaí, que promoveu o evento junto com a Adefil. Ontem pela manhã, foi projetado o filme ‘‘Gaby - uma história verdadeira’’, no espaço que era ocupado por uma academia de ginástica. A fita fala sobre as dificuldades de uma deficiente física. A abertura da campanha aconteceu às 14 horas, na entrada principal do Catuaí, com a presença de associados da Adefil e autoridades municipais.
À tarde aconteceu, no espaço da antiga academia, o ponto alto do programa: um painel dirigido especialmente a empresários, comerciantes, engenheiros, arquitetos e autoridades municipais com o tema ‘‘Acessibilidade ao meio físico: uma questão de cidadania’’. Durante o painel, duas palestras estavam programadas: ‘‘Deficiência física e sociedade: respeitando as diferenças’’, com Maria de Lourdes Canziani, pedagoga curitibana, especialista em deficiência física. A arquiteta londrinense Kátia Lopes de Paula falou sobre ‘‘Arquitetura sem barreiras: uma visão empresarial’’.
Ainda como parte da campanha, desde ontem estão expostos no Catuaí painéis sobre a Adefil, deficiência física e eliminação de barreiras, além de obras do artista plástico Mário Pachado. Os alunos do Instituto Estadual de Educação de Londrina (IEEL) e Colégio Tiradentes também prepararam desenhos sobre o tema.
Hoje, último dia da campanha, acontecerá um Campeonato de Boliche entre deficientes físicos a partir das 10 horas. E, às 17 horas, o músico Paulo Lima - portador de deficiência - se apresentará ao vivo.
A Adefil também está aproveitando a campanha para pedir a ajuda da comunidade e arrecadar dinheiro para a construção de uma sede própria. O terreno, localizado na zona norte da Cidade, será pleiteado junto à Câmara de Vereadores. Aparecida Ruela comenta que a atual sede, localizada no Edifício Metrópole, na avenida Paraná, 427 (centro), é pequena e o aluguel pesa no orçamento da associação, que só conta com uma verba mensal da Prefeitura, além de algumas promoções.
Quem quiser ajudar a Adefil a construir a sede, pode depositar qualquer quantia na agência 039 do Banestado, conta 104.000-1. Materias de construção também poderão ser doados. Basta ligar para o fone (043) 330-7678, falar com Nilma. A associação também estará vendendo camisetas em um estande montado em uma das entradas do Shopping.

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