OPORTUNIDADE -

Com faixa, cozinheiro colombiano pede emprego no centro de Londrina

Luis Eduardo Arbini estava indo para a Argentina, mas sua vida mudou completamente por causa do coronavírus e dos roubos que sofreu

Pedro Marconi - Grupo Folha
Pedro Marconi - Grupo Folha


Chefe de cozinha formado, Luis Arbini está em Londrina há cerca de duas semanas
Chefe de cozinha formado, Luis Arbini está em Londrina há cerca de duas semanas | Pedro Marconi - Grupo Folha
 


No cruzamento da avenida Higienópolis com a rua Pio XII, no centro de Londrina, uma faixa com o apelo “preciso de trabalho para voltar para casa!” chama atenção. Quem faz o pedido é Luis Eduardo Arbini, 37, também conhecido por Luigi. Colombiano, ele busca um emprego para poder se restabelecer financeiramente e recomeçar a vida na Argentina, onde tem amigos e o filho, Santino, de nove anos. 


Chefe de cozinha formado, está em Londrina há cerca de duas semanas, entretanto, sua saga começou em março. Após fechar o restaurante que mantinha em Barranquilla, na Colômbia, optou por ir morar na Argentina. Primeiro passou pelo Equador e quando estava no Peru, a fronteira do Chile, próximo país no trajeto, foi interditada como medida de segurança ao coronavírus. Decidiu entrar no Brasil, pelo Acre, e a fronteira acabou bloqueada dois dias depois para estrangeiros. 




Na região Norte brasileira, teve o celular e o dinheiro - aproximadamente US$ 4 mil - roubados. “Chorei muito, porque perdi todo o valor que tinha para ir para a Argentina”, relatou. “Passei a pedir caronas e fui ao Mato Grosso, Goiás, diversas cidades de Minas Gerais e parei em Guarantã (SP)”, afirmou. Em São Paulo, mais um problema: foi novamente roubado e desta vez também espancado pelos criminosos, que levaram as roupas e os documentos. 


Ficou internado em Marília (SP) e posteriormente foi para uma casa de passagem. “Me ajudaram muito nesta casa, mas era de reabilitação e não tenho e nunca tive problemas com drogas ou bebida. Queria vender chocolates para manter o mínimo de renda, porém, não dava para ficar saindo desta casa”, relembrou. Foi neste lugar que ouviu sobre Londrina. “Disseram que era uma cidade grande e que poderia ter mais oportunidades.” 


OPORTUNIDADE

Com o dinheiro que conseguiu, embarcou rumo a Londrina, onde vendeu mais alguns chocolates e fez a faixa. “Procurei o Centro POP, foram muito atenciosos, falaram com a PF (Polícia Federal). No entanto, a polícia informou que não poderia fazer nada, que teria que tirar novo passaporte em São Paulo”, lamentou. Arbini destacou que foi atrás da embaixada da Colômbia no Brasil, porém, não teve retorno. 


Abrigado em uma das casas do Centro de Assistência e Recuperação de Vidas Morada de Deus, onde se alimenta e pernoita, o colombiano tem ficado todos os dias na mesma esquina pedindo uma oportunidade. Ele está sem aparelho telefônico. “Muita gente me oferece comida e dinheiro, mas não aceito. Sei que é de bom coração, mas com a minha condição, saudável, não é correto. Se posso trabalhar, não tenho motivo para pedir dinheiro. Meu único objetivo é trabalhar”, frisou. 


NOVO SENTIDO

O cozinheiro calcula que será necessário, no mínimo, uma quantia de R$ 3 mil para ir a São Paulo retirar um novo passaporte e depois ir a Córdoba, na Argentina, pelo Sul do País. O trabalho não é apenas para juntar este valor, mas para dar novo sentido à vida. “Não é chegar neste montante, deixar o emprego e ir embora. É me reconstituir financeiramente e recuperar muito para poder ir bem para a Argentina. Quero reencontrar meu filho e falar que cheguei até ele com o meu esforço. Preciso dar o exemplo.” 


Fluente em inglês, italiano e espanhol, Luis Eduardo Arbini ainda arrisca o “portunhol”, o que deixa explícito na faixa que carrega. Segundo ele, gosta de cozinhar pratos da Itália, mas garantiu que conhece e sabe fazer feijoada. “Sei que ninguém vai me dar um trabalho como chefe de cozinha, mas que seja para lavar pratos, o chão, ser garçom. Não me importo”, disse. “Tive restaurante e sei que é difícil dar emprego desta maneira. Muitos podem não confiar, querer o documento, mas não tenho nem isso. Entrei legalmente”, ponderou. 




DIREITOS

Classificando sua atual situação como difícil, tem mantido a esperança e distribuído o desejo de bom dia a quem passa por ele. “Não sou morador de rua, mas estou em condição de rua. Não tenho direito a ter amigos, tomar um café e comer o que eu quero e não o que oferecem. Não peço que ‘corram por mim’, quero ‘correr’ e fazer meu trabalho, pois tenho capacidade. Por enquanto é o sorriso das pessoas que tem me dado força.”

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