Walter Ogama
De Londrina
A expressão serena e a facilidade de comunicação escondem os 63 anos de idade de Milton Abade Bonfim, um baiano de Vitória da Conquista com mais de três décadas de Londrina. Dono de uma oficina de consertos e reformas de calçados instalado no Centro Comercial, na área central da cidade, seo Milton é um profissional exigente.
‘‘Se é para fazer um serviço porcaria eu já nem pego’’, diz, enquanto ajeita no salão de uma porta os pares de sapatos e sandálias. Exigência maior ainda ele manifesta quando se refere aos três empregados que mantém. ‘‘O bom profissional faz um serviço limpo, caprichado’’. Isso pode ser percebido na oficina, onde a poeira e os retalhos de couro, comuns em algumas sapatarias, não existem.
Tamanho rigor com a qualidade do que faz é fruto, segundo relata seo Milton, de sua formação no ramo de consertos e reformas de calçados. Ele começou no ofício quando tinha 13 anos de idade e ainda morava na Bahia. Como aprendiz, teve a sorte de iniciar a carreira com um patrão severo, que dava muito mais do que bronca quando o então menino Milton fazia alguma coisa errada. ‘‘Antes de começar a mexer com os calçados eu tinha que ajeitar a oficina, fazendo inclusive uma boa faxina. E o patrão ordenava ao seu filho que me desse uns ‘petelecos’ se fizesse algum serviço errado’’.
Depois do começo da carreira na Bahia, seo Milton foi trabalhar em São Paulo, no mesmo ofício de sapateiro, antes de chegar a Londrina, em 1963. Na cidade, já manteve oficinas na Rua Araguaia (Vila Nova) e na ruas Sergipe e Benjamin Constant, no centro. Nos últimos anos está instalado no Centro Comercial, onde mantém uma clientela cativa. Entre as pessoas que levam calçados para seo Milton reformar estão médicos famosos de Londrina, empresários de destaque e personalidades importantes da cidade.
Alguns fregueses deixaram Londrina, mas continuam arrumando seus sapatos na Renovadora Central de Calçados, como está registrada a oficina de seo Milton. ‘‘Minha maior freguesia é de fora. Tem um freguês que morava em Bela Vista do Paraíso (40 km a norte de Londrina) e mudou para Rondônia. Ele me manda serviço pelo Sedex até hoje’’.
Especialista no assunto, seo Milton tem uma avaliação negativa dos calçados fabricados atualmente, mesmo aqueles de preços mais elevados e caracterizados por selos de marcas famosas. O cromo alemão de uma dessas marcas serve de exemplo: ‘‘Antes o cromo alemão era macio, hoje parece até um couro rústico’’, comenta, apalpando o par de calçados de um médico conhecido em Londrina, cujo solado ele consertou pela segunda vez. ‘‘Esses dias um freguês trouxe um sapato de cromo com palmilha de papelão. A qualidade do material usado e do produto pronto caiu muito’’, acrescenta.
Por conta dessa diferença de padrão entre os calçados de antigamente e os de hoje, segundo seo Milton alguns fregueses levam para a oficina sapatos novos para serem reforçados, principalmente no solado. Um freguesa de origem japonesa, viúva de um destacado industrial da região, tem alguns pares novinhos na Renovadora Central.
Por esse exemplo, percebe-se que os fregueses de seo Milton são pessoas da classe média para cima, conforme ele enfatiza. ‘‘São estas pessoas que compram calçados de boas marcas’’. Ao contrário, aliás, do que poderia se imaginar: sapatos de preços irrisórios, que seo Milton classifica de descartáveis, são comprados por consumidores de baixa renda. A má qualidade dos produtos descarta qualquer possibilidade de reforma. Segundo o profissional, um par de sapatos de R$ 40,00 a R$ 50,00 já merece investimento em consertos.
E, dentre os fregueses de classe média para cima, há aqueles que costumam reformar seus pares de calçados para ocasiões especiais. Um sapato de cor clara pode ganhar outro aspecto com uma pintura. Para gostos mais sofisticados, o sapato pode ser forrado com o mesmo tecido do vestido confeccionado para o baile de formatura do filho, por exemplo.
Mas de todos os assuntos que seo Milton conversa, o que mais o deixa eufórico é o referente ao zelo e ao capricho do profissional que executa algum tipo de serviço e vive com a renda de sua atividade. Ele encontra brechas para retomar o tema e citar exemplos diferentes. ‘‘Se eu não levar o meu negócio a sério, o freguês aparece só uma vez e nunca mais volta. O profissional não trabalhou bem, tem que fechar as portas’’.
Ele, com seus 50 anos de profissão, reclama que encontra dificuldade hoje em dia para contratar bons empregados. ‘‘Tem uns que chegam e dizem já ter trabalhado 20 anos na profissão. Mas quando você vê o trabalho deles, é obrigado a dispensar na hora.’’ Esses, dispensáveis, segundo seo Milton, são os ‘‘salsicheiros’’, conforme ele chama.
Seo Milton tem dois filhos e um neto. O segundo netinho está para nascer. Dos filhos, ninguém escolheu a profissão do pai. Não só por causa da escolha profissional dos filhos, mas principalmente pela falta de sapateiros caprichosos, seo Milton tem um lamento: ‘‘Se um dia essa profissão acabar, será por pura falta de mão-de-obra’’.
Quanto à dedicação que o bom consertador de sapatos deve ter, seo Milton ilustra com mais um bom exemplo: ‘‘Eu gosto da minha profissão. Trabalho 12 horas por dia e aos sábados vou até tarde. Para mim não tem horário, eu gosto de trabalhar’’.

PERFIL
Nome: Milton Abade Bonfim
Idade: 63 anos
Profissão: sapateiro
Tempo de profissão: 50 anos
Característica: exigência quanto ao capricho e à dedicação de quem trabalha no ramo

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