Jenny-Flore Saintilmé deixou o Haiti, seu país de origem, depois do terremoto em 2010, que matou 316 mil pessoas. Seu primeiro destino foi a República Dominicana, onde já morava sua mãe, mas o sonho era desembarcar no Brasil. Por quê? "Sempre diziam que aqui era um país bom, as pessoas falavam que podia vir e ter uma nova vida melhor e com trabalho", justifica.
Mesmo a contragosto da mãe, a haitiana de 23 anos chegou ao Brasil há um ano. Na mente, um sonho: estudar e se tornar engenheira. Jenny já trabalhava em um restaurante em Itajaí (SC) quando veio a surpresa: estava grávida de dois meses. Há 30 dias nasceu Wistechely, fruto de um relacionamento que começou ainda no trajeto entre a República Dominicana e o Brasil.
A jovem haitiana agora se dedica exclusivamente aos cuidados com o filho. Os planos de trabalhar e estudar vão ter que esperar mais um pouco. "Vim para terminar meus estudos, faltam apenas dois anos. Mas agora não tenho nem como trabalhar", diz.

Com assistência precária, cresce preocupação com imigrantes grávidas
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A história de Jenny é um relato cada vez mais comum entre as imigrantes que desembarcam no Brasil. O Paraná ainda não tem dados exatos de quantas elas são. Em Londrina e região, também não é possível determinar esse número. Mas é fato que o número de mulheres imigrantes, principalmente haitianas, aumentou muito nos últimos anos, tanto na região de Londrina quanto no restante do País. "A gente começou a perceber isso mais no ano passado, quando começaram a sair as autorizações de permanência (dos maridos)", conta a coordenadora da Cáritas Arquidiocesana de Londrina, Márcia Ponce. O número de mulheres que têm vindo sozinhas, antes de filhos e cônjuges, também é alto. É a inversão do processo, que antes tinha homens partindo primeiro em busca de emprego.
Somente há alguns meses os próprios imigrantes começaram a se organizar para criar associações e buscar melhores condições de sobrevivência. Quem trabalha diretamente com a recepção destes estrangeiros acredita que esse pode ser um passo importante para se começar a ter noção de quantos eles são. "É uma iniciativa que a gente tem estimulado, é uma forma que eles têm de se organizar. Em Maringá, uma associação de haitianos chegou ao número de 3 mil ali naquela região. Então vale para termos uma noção. São muitos", aponta Márcia.
Diante de uma situação de assistência que já é precária, o que preocupa os órgãos responsáveis pela recepção dessas imigrantes é o fato de muitas delas chegarem ao País grávidas. "A maioria tem engravidado nesse trajeto, e uma coisa que chama a atenção é que tem muitas grávidas de gêmeos. É muito mais complicado", cita.
Por terem nascido no Brasil, os filhos de imigrantes são considerados brasileiros e, portanto, estão amparados pelos direitos previstos na Constituição Federal, incluindo acesso aos serviços públicos de saúde e educação, entre outros.
Em todo o Brasil estima-se que a onda migratória recente tenha trazido 40 mil pessoas, a maioria haitianos. Mas ainda faltam políticas públicas de recepção e assistência. A coordenadora do Cáritas destaca a ausência de estrutura para fornecer condições mínimas de sobrevivência a eles. "Estamos falando já de famílias inteiras de haitianos no Brasil. Estão nascendo filhos aqui e isso vai impactar nos serviços públicos do Estado, do município. As crianças vão precisar de escola, de creche. Então são várias dificuldades", observa Márcia.
Na maioria das cidades que servem de porta de entrada ou moradia para imigrantes, ainda não há verba prevista em orçamento destinada a políticas públicas específicas. Os avanços até o momento são debates promovidos em torno do assunto. Em Londrina, há pouco mais de um mês, a Câmara de Vereadores realizou audiência pública que contou com a participação de alguns estrangeiros. "Temos debatido muito isso em todos os espaços, tanto em nível local como nacional. Falta política pública, capacitação aos órgãos de saúde, educação, assistência social; falta informação", cobra Márcia.
"O que a gente percebe é um grande despreparo tanto das empresas como dos órgãos públicos para essa nova onda imigratória. As pessoas não sabem bem como encaminhar (para um trabalho). É preciso entender quem são essas pessoas, quais são as necessidades, como estão se adaptando ao País. Eles têm um jeito muito diferente do nosso. Enquanto estamos tomando café da manhã, eles estão comendo arroz e feijão", compara.
A Cáritas de Londrina é responsável por realizar o primeiro contato com os imigrantes na região. A instituição do terceiro setor trabalha com outros projetos sociais, para alguns dos quais ainda conta com apoio do poder público. Mas, para o trabalho com os imigrantes, o recurso é zero. "A gente passa o chapéu mesmo, fazemos ações como rifas e bazares", conta a coordenadora. "Temos que tirar um pouco esse foco de que as instituições religiosas estão vinculadas ao assistencialismo", emenda.
A instituição conta também com a ajuda da sociedade para doações de fraldas, móveis, roupas, comida e outros materiais de necessidade básica. Quem quiser ajudar pode entrar em contato com a Cáritas pelo telefone (43) 3338-7252 ou fazer a doação na conta corrente do órgão no Sicoob (Conta corrente: 6794-6/Agência: 4355).

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