Com a palavra, os meninos
Aprisionados longe dos olhos preconceituosos da sociedade, os adolescentes privados da liberdade do Cense II têm poucas oportunidades de falar. Mas quando aproximamos os ouvidos, o grito que sai de dentro das celas pede respeito e uma nova chance. O relato de três dos 67 meninos apreendidos mostra que não é impossível acreditar que podemos oferecer um futuro melhor para eles, e para nós.
A voz do jovem de 19 anos revela um homem de pensamento firme, um líder nato e articulado. Mas quando começa a falar conta que só aos sete anos conheceu a mãe. Foi morar com ela e logo deixou a escola de tanto se mudar de um lado para outro.
''Sempre gostei de estudar mas minha mãe mudava direto e aí não conseguia vaga. Quando consegui, já não queria mais. Hoje, quando os meninos falam que abraçaram suas mães, sinto falta, mas não sei se conseguiria abraçá-la'', confessa.
Aos nove anos, foi viver com o tio traficante. Ficou entorpecido pelo respeito que o parente gozava no bairro: ''via que todo mundo gostava dele e comecei a achar que aquilo era o certo''. Logo ficou responsável por uma ''boca'' e passou a seguir a lei do tráfico: eliminar quem não a seguia. Não demorou e foi obrigado a matar um rapaz que roubava no bairro.
Com quatro passagens, ele reencontrou na educação oferecida no Cense II uma chance de oferecer um futuro diferente para a mulher e os dois filhos pequenos. ''Consegui mudar meus pensamentos com educadores que ajudam e mostram quem você é na sociedade. Comecei a ver os bons exemplos para me fortalecer e planejar coisas boas'', celebra. Concluiu o ensino fundamental e foi aprovado no curso de carpintaria do Senai, que começa nas próximas semanas. Hoje, lê Gilberto Freyre, Michel Foucault, faz ''raps'' contextadores e planeja estudar sociologia.
Com 11 anos, o outro menino franzino que hoje ocupa um ''X'' no Cense II já traficava. ''Queria comprar as coisas que eu gostava e não tinha'', argumenta. Facilmente, faturava até R$ 3 mil por semana. Nunca frequentou escola. Atualmente, acumula mais de dez procedimentos na Vara da Infância e Juventude.
''Agora, já sei ler e escrever e aprendi aqui dentro'', comemora. Quinto entre oito irmãos, pouco conviveu com os pais. ''Minha mãe está em São Paulo'', conta o rapaz, hoje com 18 anos. Outra tristeza foi superar a morte de um dos dois filhos que teve com a namorada, que sempre o visita no educandário.
Alto, forte mas tímido, um outro jovem de 17 anos assume que viveu uma rotina de entra e sai do Cense desde que era criança. Com oito anos, começou a se drogar. Depois, a própria mãe o ajudou a afundar no vício. Roubava muito, sempre à mão armada.
''O dinheiro vinha fácil e gastava com muitas coisas, drogas, roupas, arma. Roubava de tudo, desde pequeno''. Agora quer mudar e pede uma chance: ''Não quero mais sofrer e penso em mudar de vida, ser uma pessoa normal''. (L.A.)





