César AugustoDe porta em portaEdevilso Vicente com a filha Kauana: ‘Nesta briga, estamos pagando a conta com angústia e desespero’- Os médicos estão usando a gente como arma para pressionar os convênios a aceitar a nova tabela. Nós não estamos pedindo atendimento gratuito. Pagamos o plano. E, agora, estamos pagando também a conta com a angústia e desespero de ter de negociar valores e prazos em momentos em que a única coisa que desejamos é o atendimento imediato e urgente.
O desabafo é do agente técnico de produção da Sanepar Edevilso Vicente, 28 anos.
Entre quarta e quinta-feira, ele precisou passar por três hospitais para conseguir atendimento de urgência para sua filha Kauana, de 3 anos. Kauana tem bronquite alérgica, fez tratamento mas ainda sofre crises de bronquite, seguidas de apnéia (paradas respiratórias). Usuário da Fundação de Saúde da Sanepar - uma caixa de assistência -, ele reclama dos efeitos da briga entre os convênios e a Associação Médica de Londrina (AML). ‘‘Isso não é justo: a briga é entre eles. Mesmo porque, depois do acordo, nós nem vamos ser consultados, vamos apenas pagar o que for acertado.’’
Os convênios não aceitam implantar a Lista de Procedimentos Médicos de 96. Como não houve acordo, a partir de 1º de julho, os médicos associados à AML passaram a atender os conveniados somente com pagamento das consultas e procedimentos médicos. Depois, com o recibo em mãos, o usuário tem que pedir o ressarcimento da despesa ao convênio.
César AugustoFebre na recepçãoJoão Busto Carmona: ‘Cadê o respeito? Estamos falando de vida, não de uma mercadoria qualquer’
Vicente conta que, por volta das 22h30 de quarta-feira, Kauana começou a sofrer uma forte crise respiratória e a reclamar de dores nas costas. ‘‘Ficamos assustados com a possibilidade de ela estar com pneumonia e a levamos até o Hospital Infantil, mas não conseguimos o atendimento.’’ Lá, segundo Vicente, o recepcionista explicou que só poderia atender Kauana se a consulta fosse paga.
‘‘Expliquei que não tinha dinheiro e cheguei a sugerir que ele aceitasse um cheque pré-datado. Mas o recepcionista não aceitou, afirmando que a orientação era dar o atendimento só com o pagamento da consulta.’’ Indignado, mas preocupado em garantir o atendimento da filha, Vicente seguiu para o Hospital Evangélico, onde foi informado de que não havia pediatra de plantão. Ainda no HE, ele ligou novamente para o Hospital Infantil, tentando negociar o atendimento de Kauana, que apresentava um quadro cada vez mais complicado - mas não houve acordo.
Do Evangélico, Vicente, a filha e a esposa foram até o Hospital Londrina - em Cambé - onde ele conseguiu que o médico aceitasse cheque pré-datado para o dia 5 de agosto e consultasse a filha. ‘‘O médico garantiu que minha filha tinha apenas uma gripe muito forte. Medicou a menina e a liberou em seguida, sem pedir nenhum exame.’’ Vicente questionou o fato. O médico respondeu que, se fossem necessários outros exames, ele não poderia pedi-los pelo plano de saúde de Vicente.
Durante a noite, a situação de Kauana se agravou. Vicente entrou em contato com a pediatra da filha. ‘‘Eu expliquei que não poderia dar outro cheque pé-datado porque não tinha mais dinheiro. Mesmo conhecendo o histórico de minha filha, ela disse que não poderia me atender.’’ O pediatra se dispôs, no máximo, a encaminhá-la para o Sistema Único de Saúde. Depois de muita insistência, Kauana conseguiu ser atendida, às 14h30 de quinta-feira, no Hospital Evangélico. Lá, segundo afirma Vicente, os exames confirmaram a situação de urgência.
Caso parecido é o de Ana Maria, 9 meses de idade. Ela tem um histórico de infecção urinária grave e recente. O pai, João Busto Carmona, também funcionário da Sanepar, conta que teve de gastar mais de R$ 100,00 para que a filha recebesse atendimento. A menina começou a ter febre alta na segunda-feira de madrugada. Como a temperatura não cedia apenas com antitérmicos, Carmona foi ao Hospital Infantil com a criança. ‘‘Há um mês atrás, minha filha quase ficou internada devido a uma infecção urinária. Os sintomas eram parecidos e fiquei com medo.’’
Na recepção do Hospital Infantil, o recepcionista pediu o pagamento da consulta alegando que se tratava de orientação da Associação Médica de Londrina. ‘‘Eu perguntei então se minha filha não poderia ser atendida pelo Sistema Único de Saúde, mas o funcionário disse que isso só poderia ser feito mediante apresentação de guia do posto de saúde.’’ Com receio de ver a situação de Ana Maria se agravar, Carmona preferiu pagar a consulta. Pagou também os exames de laboratório, que apontaram infecção urinária.
‘‘Essa situação é um absurdo. Mensalmente são descontados mais de R$ 80,00 do meu salário para o SUS. Nem em situação de urgência eu consigo o atendimento. Pago um convênio e, mesmo assim, minha filha quase não é atendida. Cadê o respeito com a gente? Estamos falando de vida, não de uma mercadoria qualquer.’’

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