Célia Baroni
De Londrina
A Companhia de Habitação (Cohab) de Londrina não vai mais aceitar ‘‘malandragens’’ de mutuários. A companhia só vai ser mais flexível e negociar alternativas com quem justificar a inadimplência e comprovar que não tem renda suficiente para pagar o valor da prestação. ‘‘Estes casos serão estudados um a um com o apoio da setor de ação social da companhia’’, frisa o presidente da companhia, Assad Janani.
Um exemplo que deverá ser avaliado pela Cohab-Ld é o da dona de casa Maria Francisca da Silva. Separada há quatro anos, ela cuida de quatro filhos, dois deles com problemas físicos e mentais - Renato, de 10 anos teve paralisia cerebral e Júlio Cesar, de 12 anos, sofre de hiperatividade. Há 48 meses ela não paga nenhuma prestação da casa onde mora, no Conjunto Maria Cecília (zona norte).
‘‘Sem poder trabalhar com regularidade, ultimamente tenho tido que escolher entre dar de comer para os meus filhos e pagar as prestações’’, afirma desconsolada. Renato é atendido na Apae, onde estuda meio período e precisa fazer fisioterapia duas vezes por semana. Júlio César necessita de atenção constante para evitar que se envolva em perigos e arrisque a vida em ações impensadas. Já colocou fogo na casa e vive fugindo de casa para correr atrás dos cavalos. Os dois já atearam fogo na casa em mais de três circunstâncias.
No ano passado, diz, ela teve que optar pelo trabalho. ‘‘Meu marido atrasou a pensão e não tínhamos outro jeito de sobreviver’’, diz. Conta que começou a passar roupa e fazer faxina para casas próximas à sua, mas teve de deixar Renato sem fazer a fisioterapia. ‘‘Os membros dele sofreram uma atrofia. Não sei mais o que fazer. Se trabalho, meus filhos ficam sem assistência. Se fico em casa não tenho como garantir o alimento deles. Agora tenho medo de perder a casa’’, desespera-se.
O problema da dona de casa se agravou porque foram feitas mudanças no contrato (refinanciamentos) nos últimos 16 anos, elevando a prestação de R$ 10,00 para quase R$ 70,00. Há quatro anos a companhia não recebe nenhuma prestação do imóvel, que soma uma dívida de R$ 1.486,00. A cada alteração do contrato o mutuário joga a dívida acumulada para o final do contrato aumentando o resíduo. Oficialmente fica em dia com as prestações, mas aumenta a prestação. Maria da Silva afirma que foi o marido quem pediu os refinanciamentos e que ele havia se comprometido a pagar as prestações e colocar em dia a dívida com a Cohab. Mas não fez.
Mesmo no caso de Maria da Silva, a Cohab não vai aceitar prorrogação do débito. Assad Jannani, afirma que não será mais concedido benefício aos mutuários que têm um histórico de não cumprir os novos contratos. ‘‘No caso desta dona de casa, basta ela vir a Cohab para negociarmos uma forma de ela voltar a pagar as prestações. Só não podemos aceitar que ela continue não pagando nada como vem fazendo’’, disse.
Jannani explica que muitos mutuários de imóveis que não têm resíduo, usam a novação (refinanciamento) do contrato para perpetuar sua dívida com o sistema. O golpe consiste em acumular as prestações para depois pedir a novação mediante o pagamento de uma ou duas prestações. O mutuário repete o processo até o fim do prazo do contrato confiando que não perderá a casa e que a dívida será quitada pelo seguro (80%) e pela Cohab (20%).
‘‘Não vamos mais aceitar fazer de conta que o mutuário pagou ou fazer de conta de que recebemos. Ou eles colocam suas dívidas em dia e começam a pagar as prestações ou ficarão sem o imóvel’’, diz Jannani. Irredutível, ele explica que este tipo de ‘‘golpe’’ é praticado por cerca de 20% dos mais de 6 mil inadimplentes - no total a Cohab tem 35 mil mutuários. Desde que começou o Programa de Execução Seletiva dos inadimplentes, a Cohab aumentou sua arrecadação de R$ 11.785,00 (junho), para R$ 39 mil (em julho).

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