Com 100 anos, 'seo' João ganha a vida transportando casas
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sábado, 01 de março de 2003
Sid Sauer<br> Equipe da Folha 
Campo Mourão Seo João Belinato, um simpático e sempre sorridente morador do Jardim Pio XII, na asa oeste de Campo Mourão, vai completar 100 anos amanhã. Nascido na capital paulista em 3 de março de 1903, ele chama a atenção pela saúde de ferro e pelo estranho ofício que mantém até hoje: transportar casas em cima de caminhões. ''Casa grande igual a mim não conheço ninguém que transporte, não'', conta, orgulhoso.
Belinato chegou a Campo Mourão em 1955, já com 52 anos. Veio montar secadores de café, um serviço que já tinha feito em outras regiões do Estado. Não sabe direito porque, acabou ficando na cidade. Trabalhava como carpinteiro e marceneiro. A idéia de transportar uma casa inteira de um local para outro só veio uns 10 anos depois. Tudo começou em 1964, quando a prefeitura resolveu alargar a Avenida Irmãos Pereira.
''Tive que abrir a rua'', conta Belinato. Para que as casas não ficassem no meio do caminho, ele teve que puxar uma por uma para trás do terreno. Para isso usou roletes de troncos de árvores. ''Foram três meses de trabalho'', relembra o carregador de casas. E nenhuma família precisou deixar a residência. Segundo ele, as mulheres faziam até o almoço enquanto a casa era colocada mais ao fundo do terreno.
O trabalho de alargamento da avenida foi pago pela prefeitura. Belinato teve que arrastar até o velho fórum de madeira. ''O prefeito era o doutor Mílton Luiz Pereira (hoje ministro do Superior Tribunal de Justiça) e como ele não tinha dinheiro, o pagamento foi um sítio de 12 alqueires do Barreiro das Frutas'', ressalta. Ela lamenta que naquela época a terra não tinha os valores de hoje.
Das casas arrastadas por Belinato há quase 40 anos, várias ainda existem. A mais conhecida é a da família Albuquerque, em frente à rodoviária velha, no centro da cidade. Foi após essa experiência que Belinato teve a idéia de levar casas inteiras para lugares mais distantes. ''Deu certo'', conta. A primeira casa transportada tinha 63 metros quadrados. ''Não era muito grande'', lembra, modesto.
A técnica de Belinato é simples. Ele levanta a casa com macacos e a coloca sobre tambores. Depois é só entrar com o caminhão em baixo e levá-la em embora. ''O mais difícil é pegar a estrada. Tem que chamar a polícia e tomar cuidado com os fios'', revela. Se a residência for coberta com telha de cimento amianto (eternit), nem é precido descobri-la. ''Mas telha de barro é tirada. Elas podem cair em cima da gente e daí machuca'', observa.
A profissão de transportar casas acabou deixando Belinato conhecido. Ele já fez o serviço em diversas cidades do Estado. Incluindo construções históricas. Algumas casas andaram longe em cima do caminhão, como uma entre Toledo e Planaltina e outras entre Formosa do Oeste e Campo Mourão. ''São cento e tantos quilômetros'', conta Belinato. A maior casa já transportada tinha 126 metros quadrados (18 por 7).
Não estão previstas festas para os 100 anos de Belinato. Ele quer apenas trabalhar. Diz que está esperando a colheita da soja para transportar uma casa em Corumbataí do Sul (51 km a leste de Campo Mourão). Belinato faz tudo sozinho. ''Sou eu, Deus e meu macacos'', brinca. O preço pelo serviço varia de acordo com o tamanho da casa. Em média, R$ 350,00. Tudo entregue em três dias. Com a garantia do seo João Belinato.


