Coluna do Percival
CONCORRÊNCIA DESLEAL
Só mesmo no Brasil o sangrento currículo da máfia poderia apresentá-la como vítima de circunstâncias. Surreal. É filosófico e pragmático: 1- ''certas convicções são mais inimigas da verdade do que as mentiras'', já dizia Nietzche; 2- o mafioso norte-americano John Edward Alite, ligado à famiglia Gambino (Nova York), foi preso no Rio, a pedido do FBI, a polícia federal dos EUA, cumprindo mandado de extradição expedido pelo Supremo Tribunal Federal.
Ou seja: 1- no País onde tantos renunciam ao ato de pensar, existem muitas máfias dominantes. Sempre uma hidra de muitas cabeças, à espera de Hércules, cuja receita mitológica de vitória foi cortá-las de uma só vez. São tantas as máfias que uma a mais, ou uma a menos, não faz muita diferença; 2- contagiado pela certeza da impunidade, John Alite instalou-se em Copacabana, despreocupado em ocultar-se, exatamente como os bandidos do Rio, que não fazem questão de se esconder, preferindo ser explicitamente ostensivo.
Assim, em resumo: o chefão não pensou que, se ainda vivo, o escritor Mario Puzzo poderia, se quisesse, produzir outra obra de tanto impacto quanto ''O Poderoso Chefão'', tendo exclusivamente personagens e cenários brasileiros. Aqui, Alite não era ''da'' máfia. Era de ''mais uma'' máfia, aliás on-line, pois se comunicava regularmente com os EUA através de um cibercafé. Não foi difícil localizá-lo: muita gente o conhecia, por ali, como ''John Americano''.
À prisão dele, simultaneamente, aconteceram capturas em massa (políticos, advogados e criminosos em geral) no sul da Itália, por causa da máfia. Veja que bizarro, para os padrões tupiniquins: políticos acima de partidos e ideologias garantiam que grandes contratos de obras públicas fossem celebrados apenas com companhias que eles dominavam; advogados foram enjaulados porque forneciam, segundo o jornal ''Independent'' (ainda bem), informações sobre investigações em andamento. Os doutores entraram em greve para protestar. Observe que ingredientes fundamentais como ética, cidadania, moralidade, escrúpulos, honestidade, caráter e vergonha foram jogados na privada e a válvula de descarga apertada com força. Mutatis mutandis, é só comparar o que é lícito e ilícito, moral e imoral, decente ou indecente.
As máfias sugam o erário, ceifam vidas, contaminam a administração pública e os poderes, desviam recursos e ajudam a manter na miséria aqueles que poderiam obter algum significado da palavra ''cidadania''. Ser mafioso não deixa de ser tentador; afinal, fileiras e quadros andam repletos de dedicados soldados e simpatizantes. O pior de tudo é que essas máfias variadas são vitoriosas, quase sempre, e causam espanto, como se fosse algo sobrenatural quando alguém se dispõe a enfrentá-las, sob riscos de ser devorado impiedosamente. A Cosa Nostra, aqui, acabou sendo vítima de concorrência desleal.





