Colocando o corpo e a mente para dialogar
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terça-feira, 05 de setembro de 2017
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

Quando a boca cala os órgãos falam e quando a boca fala os órgãos saram. Essa frase se tornou bastante popular entre os terapeutas comunitários de todo o Brasil e foi com esse conceito que foi implantado em 2015, na Unidade Básica de Saúde do Jardim Padovani/Residencial Vista Bela (zona norte de Londrina), a terapia comunitária integrativa para tratar hipertensos. É uma estratégia que une a sabedoria popular ao conhecimento científico e transforma o uso da palavra em um método terapêutico pelo qual os problemas no corpo são tratados integralmente, inclusive cuidando da mente.
Uma das participantes é a dona de casa Floripes Alice da Silva Mota, 79, que possuía uma vida saudável até que seu pai sofreu um AVC - acidente vascular cerebral. "Ele ficou na cadeira de rodas e me dediquei exclusivamente a ele e esqueci de mim. Isso me fez ficar doente. Eu nem sabia o que era depressão, mas tinha um desassossego na cabeça que nada estava bom", relembra. Ao aprender lidar com os sentimentos de angústia e estresse, segundo ela, sua pressão arterial, que estava 13 por 10 cm de Hg, caiu para 10 por 8. "Hoje cuido de meu pai com carinho e com mais facilidade, porque agora lembro de cuidar de mim também", ressalta.
Desde que a terapia começou a ser oferecida, já ocorreram 45 encontros para hipertensos na UBS. As rodas são realizadas semanalmente, às terças-feiras, às 7h30, com pessoas de todas as idades. A agente comunitária de Saúde Surli Belchor de Oliveira, que também é terapeuta comunitária, conta que há cerca de dois meses um novo grupo foi iniciado, e há pacientes que continuam no projeto desde as primeiras conversas. As sessões começam com alongamentos no pátio da UBS e depois o grupo se dirige para uma sala, onde formam uma roda conduzida pela terapeuta. Cada encontro dura de 45 minutos a 1 hora.

"Começamos a fazer esse trabalho para ver se diminuía essa necessidade de medicação e o resultado foi muito positivo. Cerca de 3% diminuíram a medicação. Aqueles que teriam de aumentar a medicação acabaram estabilizando", informa a agente comunitária.
A evolução dos pacientes surpreende. A artesã Luzia Simplício, que diz que já passou de 50 anos, conta que a vida era só trabalhar. E por conta de problemas familiares, ela sofreu um AVC. "Fiquei mais de 20 dias no hospital. Quando passava de maca pela sala em que a terapeuta estava, ela me chamou para participar do grupo", lembra, observando que o AVC a havia deixado toda encolhida, contraída. "Eu estava pequenininha e agora voltei a crescer de novo um pouco. Com a terapia comunitária e os alongamentos fui me soltando e recuperei todos os movimentos. Antes só andava tremendo e chorando", relembra.

A terapeuta explica que ouve muitas histórias que mexem com ela, de problemas familiares. "Existem mães que chegam relatando que o filho foi preso, ou que foi assassinado." A coordenadora da UBS, Marília Sitta Leutti, diz que a carência dos bairros da região não é só financeira. "Vem da criação, de como as famílias se constituem e da relação entre pais, filhos e avós. Também temos muitos idosos morando sozinho", conta.
A fisioterapeuta da unidade de saúde, Adriana Yuki Izumi, diz que os resultados do trabalho são recompensadores. "Há uma troca. Não sou só eu que ofereço algo. Ver eles sorrindo já me faz ganhar o dia. Ver uma senhora que estava depressiva e com dor melhorando é muito gostoso. Tratar o físico e o psicológico juntos é proporcionar um trabalho mais humano com o paciente", explica.


