Todo dia, pelo menos 210 mil sacos de lixo são recolhidos das casas de cerca de 80% dos londrinenses e seguem direto para a reciclagem. A população já se acostumou com a rotina de separar o que pode ser reaproveitado e entregar para um dos 35 grupos de recicladores. Tanto é que em pesquisa divulgada há algumas semanas pela ONG Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), Londrina foi o município brasileiro com o melhor desempenho do sistema de coleta seletiva – com 3.540 toneladas/mês no ano passado – e o que registrou o menor custo por tonelada recolhida, mais de dez vezes menor do que a média nacional: US$ 21,76 contra US$ 221,00.
  Os números impressionam mas, sozinhos, não iluminam adequadamente o cenário que envolve a reciclagem em Londrina. Protagonistas dessa história de sucesso, boa parte dos cerca de 500 recicladores amarga uma realidade bem diferente da que é descrita em pesquisas e indicativos de eficiência. Neste contexto, o que salta aos olhos são histórias de dificuldade destes trabalhadores diretamente ligados às ONGs de reciclagem.
  Vale lembrar que os primeiros grupos foram criados quase oito anos atrás com o objetivo de gerar emprego e renda para aproximadamente 70 pessoas que garimpavam no aterro sanitário. Com o Projeto ‘‘Reciclando Vidas’’, a prefeitura teve condições de ampliar o sistema de coleta seletiva e, de quebra, poupar dinheiro e o meio ambiente. Na esteira da esperança, surgiram dezenas de coletores independentes – os carrinheiros – que disputam espaço com as ONGs.
  Mas a promessa de sucesso ainda não se concretizou. Retirados do ‘‘lixão’’ por pressão da Justiça, muitos recicladores encaram hoje uma vida tão (ou mais) cheia de privações quanto antes.
  Individualmente, grande parte dos trabalhadores continua sem alcançar direitos fundamentais, como moradia própria e saúde, e mal dá conta de alimentar a família. Conforme relatos feitos à FOLHA, mães com gestações avançadas trabalham até oito horas diárias em pé e sem proteção. As que acabaram de ter seus filhos são obrigadas a retornar ao trabalho poucas semanas depois. Nem os que ficam doentes conseguem descanso e só são poupados enquanto estão internados.
  Coletivamente, estes trabalhadores se dizem sufocados com a abertura de novos grupos de coletores, que teria acirrado a concorrência. Sem estrutura, os grupos se obrigam a aceitar as condições nem sempre vantajosas dos atravessadores, hoje os que mais lucram com a reciclagem. Mas, assim como antes, sobrevivem acreditando que o final desta história possa ser feliz também para eles.

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