Colégio Hugo Simas completa 70 anos
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quarta-feira, 20 de junho de 2007
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
''Talvez seja eu a última das testemunhas do lançamento da pedra fundamental desse grupo escolar de Londrina que, mais tarde, foi batizado, ou rebatizado de Hugo Simas'', diz o médico Lauro de Castro Beltrão. O estabelecimento completará 70 anos em 14 de julho e, desde 1993, é o Colégio Estadual Hugo Simas. ''Eu não fui aluno'', ressalva, ''eu fui testemunha da sua construção, sou aquele menino de boné nas fotografias sobre o evento, que aparece junto de outros meninos maiores''.
Beltrão nasceu em Curitiba, mas é vinculado ao Norte do Paraná desde criança. Um dos fundadores da Universidade Estadual de Londrina e ex-professor, ele observa que o grupo escolar evidencia que o Estado ''participou de maneira muito significativa desde o início da colonização, ao contrário do que se insinua e se afirma, até, que o Norte do Paraná foi à revelia'' do poder público paranaense. ''Isto me parece que seja uma distorção, um cacoete um pouco paulista, já que a maioria dos pioneiros vinha de São Paulo.''
No dia 11 de julho de 1936, à tarde, foi colocada a pedra fundamental do edifício do grupo escolar. Lauro tinha entre quatro e cinco anos. ''Vim com meu pai e minha mãe no fordeco que ele dirigia, num dia muito frio.'' A família morava em Ibiporã, cidade fundada pelo pai de Lauro, o engenheiro Alexandre Gutierrez Beltrão, sócio do Escritório Técnico Beltrão & Cia., em Londrina, contratado para construir o prédio.
O convite fora distribuído no dia anterior: ''Devendo realizar-se amanhã, às 15 horas, o lançamento da pedra fundamental do edifício destinado ao Grupo Escolar de Londrina, a ser construído por determinação do Governo do Estado, temos a honra de, em nome do Engenheiro-Chefe da 3 Residência do Departamento de Obras e Viação, convidar-vos assim como a vossa Exma. Família para assistir a essa cerimônia que terá lugar na quadra destinada para esse fim à Rua Jataí desta cidade. Beltrão & Cia. Engenheiros Construtores.''
Ele recorda ''uma cerimônia muito singela'', em que o engenheiro Beltrão convidou o prefeito Willie Davids para a primeira colher de argamassa e um cidadão, empolgado, discursou em voz alta. Ernesto Marchesini, que, para não ''deixar passar despercebido o momento sem dizer alguma coisa solene'', derramou elogios ''ao programa de governo do Exmo. Sr. Manoel Ribas relativamente à zona ubérrima do norte do Paraná'', registrou o Paraná-Norte. Aproximadamente 50 participantes, pelas assinaturas na ata, entre eles os casais Elizabeth-Arthur Thomas, Jamile-David Dequêch, Carlota-Willie Davids e Cornélia-Alexandre Beltrão. Aos presentes ''foi oferecido um copo de cerveja e para com todos, de uma gentileza cativante os drs. Alexandre Beltrão e Ulysses Medeiros''.
Doado pela Companhia de Terras Norte do Paraná, o terreno do grupo é de frente para a Rua Jataí (hoje Pio XII) entre a Ceará (atual Prefeito Hugo Cabral) e a Pernambuco. Ali, José Juliani fotografou troncos de árvores e tijolos em primeiro plano; ao fundo, a igreja matriz à esquerda do Bosque e a casa dos padres à direita. O que se vê no plano intermediário são as pessoas tomando cerveja ao redor da mesa repleta de garrafas. Outra lembrança de Beltrão é a de ter perguntado se ia estudar naquele grupo escolar e ouvido Alexandre responder que não, porque seria construído o de Ibiporã.
Mas, antes de ingressar em grupo escolar, Beltrão recebeu aulas particulares de Mercedes Camargo Martins, que assinaria Madureira depois de casada. ''Talvez eu tenha sido o primeiro aluno de dona Mercedes'', presume Lauro, que viajava de trem diariamente a Londrina. Só depois ingressou no Grupo Escolar de Ibiporã, de onde saiu para o Colégio Marista em Curitiba. Forma-se em Medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especializa-se em anatomia humana e cirurgia. Professor titular da UFPR, depois catedrático na Faculdade de Medicina da então Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, participa da implantação da Faculdade de Medicina de Pelotas (RS).
Na Fundação de Ensino Superior de Londrina (Fesulon) é o primeiro professor da Faculdade de Medicina do Norte do Paraná, criada em 1967, e integra a comissão instituidora da UEL, em 1969. Havia cinco faculdades, cada uma com dois representantes no conselho. Dessa participação tem grande orgulho até hoje, mas não foi pacífica. ''Tinha o espírito muito independente, contrastando com o provincianismo. Acabei me atritando.'' Antes de se aposentar, Lauro foi professor visitante da New York University, em 2003.
''Pioneiro que não pára'', atualmente ele busca parceiros do exterior para um projeto agroindustrial apropriado à característica fundiária da região de Londrina.


