A rede hospitalar de Londrina está muita próxima de entrar em colapso, alertaram ontem dirigentes de hospitais e entidades de classe. Uma entrevista coletiva foi convocada na Associação Médica de Londrina (AML) para apresentar os déficits da saúde pública e apelar à população para que pressione por mudanças.
''Ou a situação muda, ou não tenha dúvida de que dentro de seis meses a assistência médico-hospitalar vai estar à beira da paralisação'', advertiu o presidente do Sindicato dos Médicos do Norte do Paraná, José Luis Oliveira Camargo. A mudança à qual ele se referiu, cobrada por todos os representantes do setor, é o aumento imediato dos repasses da União para atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) e a cobertura de déficits acumulados ao longo dos anos com os hospitais.
Somente a dívida do Ministério da Saúde (MS) com os hospitais londrinenses Santa Casa e Evangélico gira em torno de R$ 9 milhões. Em junho, as mesmas reivindicações levaram a prefeitura - gestora dos recursos do SUS - a requerer ao MS uma suplementação emergencial de R$ 10 milhões para conter a defasagem. Esperada para agosto, a resposta ainda não chegou. Médicos e hospitais também pedem um acréscimo de 30% nos atuais R$ 11 milhões repassados mensalmente pelo ministério.
Os argumentos para pintar um cenário tão alarmista e exigir mais verbas foram agrupados num relatório e embasados em números. Conforme o levantamento, o custo de um tratamento de trauma de tórax por arma de fogo, bastante comum na cidade, é de R$ 1,2 mil (sem considerar os honorários médicos). O valor repassado pelo SUS, entretanto, é de pouco menos de R$ 300, gerando um déficit de R$ 900 a cada tratamento.
O rombo é ainda maior nos tratamentos com UTI de Acidente Vascular Cerebral (AVC), um dos principais fatores de mortalidade em Londrina. O custo para os hospitais é de R$ 6,3 mil e, o valor do SUS, de R$ 1,5 mil. O déficit acaba sendo de quase R$ 5 mil. ''Mesmo que eles (gestores) pagassem todos os procedimentos, o déficit geral por ser remunerado pela tabela do SUS já seria imenso. Mas ainda deixam de pagar'', ressaltou o diretor do Evangélico, Luiz Soares Koury.
Os hospitais arcam ainda com o prejuízo de internamentos que deveriam ser custeados pelo SUS, mas são rejeitados pela Secretaria Municipal de Saúde. Segundo os hospitais, isso acontece quando um mesmo paciente precisa ser internado duas vezes num mês ou mesmo quando chegam dois pacientes homônimos. Outro problema é que os internamentos de alta complexidade, justamente os mais caros, têm seu pagamento protelado.
Somente este ano, até o mês de setembro, o relatório aponta que o Evangélico teve 1 mil Autorizações de Internamento Hospitalar (AIH) pelo SUS não recebidas, um terço das 3 mil AIH produzidas. No ano passado, apenas 85 das 4 mil AIHs haviam sido rejeitadas.
Os números também indicam por que o trabalho nos hospitais deixou de ser atraente para os médicos menos idealistas. O SUS paga o preço de um lanche modesto por cada consulta de Pronto-Socorro (PS): são R$ 7,50, dos quais R$ 5,00 vão para o atendimento médico e R$ 2,50 para o hospital. Se a consulta mobilizar dois médicos, o valor tem que ser repartido.
''Fica cada vez mais difícil conter os pedidos de demissão'', assinalou o presidente da AML, Antonio Caetano de Paula, citando que já há dificuldades para contratar profissionais nas áreas de cirurgia vascular e geral. O secretário-geral da AML e vice-diretor do Hospital do Câncer de Londrina, Rubens Martins Júnior, também denunciou que, contrariando normativa do Conselho Regional de Medicina (CRM), os médicos que ficam de plantão o dia todo não recebem nada se não houver nenhum chamado.
''Precisamos de apoio político supra-partidário para que encaminhem a verba correspondente à demanda'', rogou Martins Júnior, sem esquecer que a prorrogação da CPMF - imposto criado para investimentos em Saúde que nunca teve sua finalidade cumprida - está sendo discutida no Congresso. ''Precisamos que a mídia e a população conheçam essa realidade e façam pressão para mudá-la'', conclamou Paula. Todos concordaram que, a exemplo do que já ocorreu com algumas especialidades, poderá haver paralisações e redução no atendimento se as soluções não vierem.

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