Cola foi último recurso de cirurgião
FamaFrancisco Gregori: solução inusitada rendeu destaque na mídEm 36 anos como cirurgião cardiovascular, e mais de 12 mil cirurgias depois, esta foi uma das situações mais difíceis que enfrentei. As técnicas convencionais não foram suficientes para resolver o problema do coração da dona Joana. Eu teria que encontrar algo diferente, inusitado, inédito. Os pontos não colavam, o buraco não se fechava e o sangue não parava no coração. O caminho parecia irreversível: iria desligar os aparelhos e assinar o atestado de óbito. Mas eu sei muito bem a tristeza que significaria para a família, para os amigos e para toda a equipe médica. Eu nunca me conformo com a morte. Por isso, mais que uma técnica, eu concluí que necessitava de uma tática. E a cola Super Bonder foi a tática escolhida.
Assim o cirurgião cardiovascular Francisco Gregori Júnior - formado em 1971 pela Escola Paulista de Medicina - lembra-se do momento em que decidiu tentar colar as quatro placas de gaze absorvível - como manchões numa câmera de pneu - no orifício provocado por infarto no coração da aposentada Joana Messas Woitas. Era 21 de março de 97.
Eu e os outros membros da minha equipe chegamos à conclusão de que precisávamos fugir do convencional. Precisávamos de um fator surpresa e não tínhamos muito tempo para procurá-lo, para pensar sobre as diferentes possibilidades. Foi neste instante que pensei na cola Super Bonder, pela sua adesividade e instantaneidade, lembra Gregori. Ele diz que a cola gel médica, à base de celulose, não serviu para fechar o orifício do coração, porque o tecido muscular estava necrosado e impedia a sutura.
O médico conta que jamais havia usado ou sequer pensado em usar a cola em situações parecidas. Talvez tenha pensado nela porque já vi meus cinco filhos com os dedos colados por ela muitas vezes. Mas, de qualquer maneira, foi um golpe de sorte num momento muito difícil. Na verdade, foi uma decisão desesperada em uma situação extrema, depois de uma hora e meia tentando sem sucesso fechar o ferimento do coração da paciente, comenta Gregori.
Tomada a decisão de usar a Super Bonder, a cola foi comprada por um funcionário do Hospital Evangélico - onde aconteceu a cirurgia - em um posto de combustíveis vizinho. O coração de Joana Woitas - que sobrevivia graças a um coração-pulmão artificial - estava completamente vazio e seco, para a tentativa de sutura através de fios e cola biológica. Não foi nada premeditado. Nós arriscamos muito ao usar a cola. Sabemos que ela não é esterilizada e tem componentes tóxicos, mas foi a última esperança. Ainda bem que acertamos, que ela deu resultado e o procedimento resolveu o problema, avalia Gregori.
O cirurgião Francisco Gregori Júnior chegou ao HE em 1976 e é também professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ele fez doutorado em cirurgia cardiovascular e tem mais de 80 trabalhos científicos publicados no Brasil e no extetior. A equipe médica chefiada por Francisco Gregori - que presta serviços ainda na Santa Casa - é composta por um outro cirurgião, Celso Cordeiro, pelo anestesiologista Wolney Wanderley, pela especialista em pós-operatório Thelma Gregori (esposa de Francisco) e quatro cirurgiões em formação. O grupo realiza mensalmente cerca de 50 cirurgias, desde as mais simples - para a implantação de marcapassos - até as mais complexas, como a de transplante do coração.
Demorei muito a contar esta história publicamente porque não sabia ao certo que rumo ela poderia tomar. Agora, apesar da enorme repercussão, está tudo bem. Recebi apoio de todos os lados, desde o Conselho Regional de Medicina até a opinião pública. Felizmente, tive minha decisão entendida por todos, comenta Gregori. Nas últimas três semanas, ele foi entrevistado por 28 emissoras de rádio, 21 jornais, oito televisões e três revistas de todo o Brasil, além de uma agência de notícias internacional.
Estudioso, pesquisador renomado, inventor do anel de Gregori - usado na recuperação da válvula mitral - e de diversas técnicas e procedimentos cirúrgicos respeitados em vários países, Gregori não considera uma ironia que esteja ficando famoso justamente por uma decisão não científica. Não quero virar garoto-propaganda da cola. O reconhecimento de que preciso - que é o de minha categoria profissional - felizmente já tenho há anos. Agi corretamente, conseguimos salvar uma vida, mas espero nunca mais passar por essa situação.





