Coisas da vida
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quarta-feira, 29 de maio de 2002
Katia Michelle Equipe da Folha 
Londrina - Entrou no táxi num ponto próximo ao cemitério. Deu a direção ao motorista, quando lhe ocorreu o inusitado. E disparou: O senhor trabalha há muito tempo nesse ponto? Deve levar muita gente triste, né? Vindo de velório, enterro, essas coisas...Nunca pensou em mudar de emprego, não?
O motorista, senhor de uns 70 anos e olhos azuis minúsculos, olhou pelo retrovisor e respondeu um seco são coisas da vida. Quando já tinha dado a conversa por encerrado, ele começou a recitar um poema.
Está certo. Não sabia bem se era mesmo um poema, não tinha as rimas de Drummond, nem as métricas de Caeiro, mas tinha versos irrequietos, observou. E, na dúvida, prestou atenção. Falava de um certo Eleurolindo, que vivia entre os galpões abandonados das estradas do Sul. Não tinha família, mas tinha um cavalo que carregava consigo enquanto pedia pouso. Quando o convidavam para sentar à mesa da casa, recitava o motorista, dizia que não era digno de fazer parte da rotina da família. E se afastava, com um prato de comida que requentava num fogo feito no chão, com madeira e fósforos velhos esquecidos no fundo da algibeira.
O destino estava chegando, não o de Eleurolindo, mas o da passageira, que notou que o motorista diminuia a velocidade à medida que a história ia ganhando peso. Esqueceu dos inúmeros sinais fechados, do atraso inevitável e pediu que ele continuasse. E ele, com os pequenos olhos idosos refletidos, a essa altura marejados, emendou: E seguia o andarilho pela estrada, dormindo no pelego do cavalo, se alimentando pouco e tão pouco sendo amado.
O cavalo, disse, trocou por alguns pedaços de pão. A algibeira, deu na estrada para alguém mais necessitado. E assim chegou o homem na cidade. Como não encontrou galpões, nem tampouco famílias que lhe dessem pouso, foi ficando nos viadutos e debaixo deles.
Nessa altura, o dinheiro da corrida já estava esquecido na mão da passageira e o carro estacionado no destino já bem há meia hora. Não cobrou a corrida. Disse ainda que tristeza não são das pessoas que morrem, deixadas no cemitério, mas sim das que estão vivas, que lutam com as armas que têm para sobreviver. Ou tentar. São coisas da vida.


