Maria Lúcia Gomes, 42 anos, moradora do Jardim Santa Fé (Zona Leste de Londrina), cuida de dois netos. Como a família não tem renda fixa e vive de ''bicos'', ela não tem condições de pagar uma creche para deixar os netos. ''O menorzinho ficava na creche aqui do Santa Fé, mas eles cobravam R$ 10. Acho muito caro pra gente, de família pobre que não tem como pagar.'' Atualmente, o neto de Maria Lúcia está em outra creche, no Jardim Marabá, na mesma região. Lá, como deveria ser em todos os Centros de Educação Infantil (CEIs), não se cobra nada para cuidar do menino.
A Constituição Federal diz que todo brasileiro tem direito à educação. Por se tratar de entidades públicas, os Centros não devem cobrar taxa alguma, mas a falta de estrutura e condições financeiras da maioria das unidades têm feito os CEIs pedirem ''contribuições espontâneas'' aos pais.
O CEI Iracema Helene Canpregher, no Jardim Santa Fé, é mantido pela ONG Instituto Matheus Emmanuel de Londrina (Imel), da Igreja Católica, e recebe um repasse mensal de R$ 10 mil da prefeitura. A unidade, que hoje atende 120 crianças de 0 a 5 anos, pede uma contribuição de R$ 10 por criança. A diretora, Carla Andréia da Silva Senne, explicou que o valor repassado pela prefeitura é usado para o pagamento dos 16 funcionários. Além disso, despesas como água e luz, que giram em torno de R$ 900 por mês, alimentação e materiais de limpeza, são quitados graças a doações. ''Hoje dos 120 alunos, só 30 têm mantido em dia a colaboração. A taxa é necessária para ajudar a entidade nas despesas, mas principalmente para conseguir manter um maior comprometimento dos pais com a rotina dos filhos na escola'', disse.
Alicéia Maria Pedro, 27 anos, moradora do Jardim Monte Cristo (Zona Leste), tem três filhos. Um deles, de três anos, é atendido pela CEI Iracema Canpregher. Ela acha justa a cobrança principalmente para aqueles que têm condições de pagar. ''Eu trabalho como diarista, então, consigo pagar. Tem gente que não tem condições mesmo, daí eu acho que deveria ser de graça'', comentou.
Atualmente, Londrina conta com 78 CEIs. Destes, 67 são filantrópicos (mantidos por ONGs e que recebem ajuda da prefeitura) e 11 são do município. Só na Zona Leste existem 16 CEIs, mas a demanda ainda parece superar a quantidade de vagas, que é 582. ''Hoje temos mais de 100 mães na fila de espera para conseguir vaga para seus filhos. Se tivesse mais vagas e as instituições tivessem mais condições, não teríamos problemas nas creches nem precisaríamos pedir colaboração alguma'', comentou a diretora do CEI do Santa Fé.
Segundo informações apuradas pela FOLHA, a maioria dos CEIs pede alguma colaboração para os pais, entre valores que vão de R$ 10 a R$ 25. Mas a secretária municipal de Educação, Carmen Sposti, salientou que essas cobranças não devem ser condicionadas ao acesso da criança à escola. ''Os CEIs são entidades filantrópicas que recebem uma contrapartida do município, portanto não devem exigir dos pais nenhuma mensalidade. Como muitas entidades estão sempre precisando de mais recursos, elas pedem uma contribuição espontânea, mas isso deve ser discutido e aprovado com os pais em assembléia para que todos cheguem num acordo. Criança alguma pode deixar de ser atendida por esse motivo'', disse.

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