''Está expressamente proibida a evangelização em Londrina!'', reclama uma moradora da cidade que preferiu não se identificar. A sua indignação é relativa a uma nova diretriz da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), que não tem permitido que grupos religiosos façam apresentações em espaços públicos. ''O Filo (Festival Internacional de Teatro) vai fazer apresentações no Calçadão e é muito bem-vindo, mas acho que nem por isso é preciso proibir a ação social da igreja no local'', opina.
A Casa de Davi foi uma das entidades que teve seu pedido indeferido. ''Nós estávamos programando para o dia 16, na Concha Acústica, um evento para abençoar a cidade de Londrina, com uma equipe de cerca de 80 norte-americanos que vêm falar sobre cura e o sobrenatural de Deus'', conta Gilberto Vicente de Souza Góis, um dos diretores da entidade. Com o pedido por escrito negado, Góis foi fazer a solicitação pessoalmente à CMTU. ''Me disseram que nenhum espaço público é cedido para evento religioso'', relata, acrescentando que o evento vai acontecer, mas em um local fechado.
O religioso diz aceitar a autoridade da decisão, mas confessa que, para ele, algumas coisas não ficaram bem esclarecidas. ''Se todo espaço público é público, e eu faço parte como cidadão, por que não? A nossa intenção era trazer apenas benefícios, respeitando todas as leis e normas do município. Como uma pessoa pode negar algo que seja melhor para a sua vida?'', questiona. Góis acrescenta que, em 1999, o ministério promoveu o lançamento de um CD na própria Concha Acústica.
O presidente do Conselho de Pastores, Joed Lamonica Crespo, prefere não se pronunciar a respeito, alegando que primeiro vai se informar melhor sobre a questão. ''A princípio, não deveríamos ter nenhuma proibição, porque a liberdade de expressão e de culto é um direito garantido pela Constituição'', adianta.
''Não é por se tratar de eventos religiosos. A CMTU tomou uma posição para minimizar ao máximo a intervenção em espaços públicos como o Calçadão, nas avenidas e nas ruas do anel central'', explicou o diretor de Trânsito da CMTU, Álvaro Grotti. O anel central engloba as ruas situadas entre a avenida Leste-Oeste, a rua Brasil e a avenida Juscelino Kubitschek. ''Se nós autorizamos, isso costuma gerar reclamações por parte dos moradores por uma série de fatores. Ou seja, resolvemos para um lado e arrumamos vários outros problemas'', explicou.
Já quando se trata de campanhas de saúde, de mobilização em prol de pessoas carentes (como campanhas do agasalho e de fraldas geriátricas), pela paz e apresentações culturais a liberação é mais fácil por se tratar, segundo Grotti, de eventos que integram o calendário oficial da cidade ou têm uma finalidade social mais abrangente do que as entidades particulares e sectaristas, sejam elas religiosas ou não. No caso das pessoas que pregam suas crenças a altos brados no Calçadão, o diretor afirma que não há muito a ser feito. ''A pessoa física tem direito à livre manifestação'', alega.
Essa posição da CMTU, segundo Grotti, é uma diretriz que data de dois a três meses atrás. Ele calcula que a Companhia receba de 8 a 10 pedidos referentes ao uso do espaço público por semana. Dentre os requerimentos indeferidos, o diretor menciona desde instalação de barracas para venda de artesanatos a pedidos de comerciantes para montar passarela para desfile e piscina de bolinhas.
A liberação do uso das praças públicas, segundo Grotti, também está mais controlada. ''Percebemos que as pessoas não têm o devido cuidado em relação a esses espaços'', justifica. Já a interdição de ruas nos bairros, bastante comum em época de festas juninas, só é liberada após uma avaliação, que leva em conta fatores como a interferência no itinerário dos ônibus e no movimento do trânsito. As atividades também não podem ferir o Código de Posturas do município em relação ao barulho.

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