Representantes da Religião, Ciência e Justiça se reuniram para debater, anteontem, em Londrina, um dos temas mais polêmicos da atualidade: a clonagem que, desde o sucesso das experiências realizadas com a ovelha Dolly, em 1997, é assunto de discussão. Ainda não existem respostas definitivas sobre o processo de cópia dos seres vivos e a procura por informações é um dos caminhos para que cientistas, médicos e cidadãos comuns fiquem mais conscientes sobre esse novo avanço e suas consequências.
Dentro desse contexto, um teólogo, um médico e um advogado se reuniram com estudantes de Medicina para debater quais as implicações que a clonagem pode trazer em benefício ao desenvolvimento humano, principalmente no campo de pesquisas de engenharia genética. O evento fez parte do 31º Encontro Científico dos Estudantes de Medicina (Ecem), realizado na Universidade Estadual de Londrina (UEL), entre quinta-feira e anteontem.
Para o médico e especialista em reprodução humana Osmar Henriques, a sociedade fantasia muito sobre clonagem e desconhece os grandes benefícios que poderão ser trazidos pela técnica. ‘‘É burrice imaginarmos, por exemplo, que será criado um ser humano apenas para a retirada de órgãos, mas é bom imaginarmos que é possível que possamos desenvolver em laboratório um órgão que venha substituir o que não está funcionando adequadamente. Além disso, somos resultados do meio e não apenas da carga genética que carregamos’’, afirmou Henrique.
O teólogo Carlos Eduardo Calvani ponderou para os avanços das pesquisas médicas, que recebem investimentos altos e não são colocadas de forma socializada e democrática para a grande maioria da população. ‘‘Questiono o real benefício dessas conquistas médicas para a maioria da população que ainda tem necessiadade básicas, como saneamento, e me preocupo com a introdução desse conceito de ‘‘novo homem’ que está se formando. Prefiro o conceito do ‘velho mundo’ em que a Nona Sinfonia foi composta por um surdo’’, disse o teólogo, referindo-se a Beethoven e a busca da perfeição que vem se firmando atualmente.
Segundo o advogado Gustavo Justus do Amarante, a legislação brasileira proíbe pesquisas sobre clonagem humana. Amarante observa que as leis não conseguem acompanhar a evolução da ciência. ‘‘Tudo está se desenvolvendo muito rapidamente e já começamos a pensar em problemáticas jurídicas, como o direito do ser humano ser geneticamente único e de não ser programado geneticamente em laboratório, assim como as relações de filiação e parentesco, e até casos de direito de sucessão. Com a possibilidade da clonagem, quem receberia herança, o clone ou o clonado?’’, questionou Amarante.
Para a estudante de medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Santos (SP) Flávia Regina Kibrit, que participou do debate, o tema ainda é pouco discutido nas instituições de ensino médico. ‘‘Com as discussões, percebi o quanto o tema é amplo e complexo e nós, estudantes, estamos alienados. É necessário mais reflexão porque não é um assunto que podemos tirar conclusões rápidas e definitivas.’’

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