O clima é tenso na Fazenda Boa Vista, em Abatiá, onde cerca 60 famílias de índios guaranis, da Reserva Laranjinha, ocuparam a área há pouco mais de um mês. Jagunços contratados pelos proprietários estão fazendo vigília próximo à aldeia, obrigando os índios a ficar em estado de alerta também. Tanto os índios como os fazendeiros, se acusam de estarem sendo ameaçados. A preocupação é que a tensão e a luta pela área se transforme em confronto armado. Segundo comentários na cidade de Santa Amélia, tanto os jagunços quanto os índios estariam armados.
O proprietário de uma área próxima à ocupada pelos índios, Clayton Yasuhiro Taje, confirmou a contratação de jagunços para defender as terras, desde o último fim de semana.''Estamos mobilizados, defendendo nossas áreas. Contratamos esse pessoal para impedir que os índios ocupem outras fazendas''. Taje afirmou também que a vigilância está sendo feita durante a noite e com reforço da Polícia Militar (PM). ''Pedimos ajuda para a justiça de Pinhalzinho e desde sábado policiais militares estão fazendo ronda no local''.
A informação é confirmada pelos índios, que vêem os policiais passando todas as noites numa estrada próxima à aldeia. ''Não estamos ameaçando ninguém e não temos intenção de ocupar outras áreas. Ficaremos aqui até que a Justiça decida com quem ficam as terras'', afirmou na aldeia o professor de língua guarani, Claudinei Ribeiro Alves.
Alves declarou que os índios estão ''preparados para tudo''. Pintados no rosto, com tintura de guerra, arco e flecha nas mãos, eles afirmam que a preparação ''por enquanto é de alerta''. ''Temos que defender nossas mulheres e crianças e se alguém entrar na aldeia, temos nossas estratégias'', afirmou, sem revelar o esquema de defesa.
No momento em que a reportagem estava no local, um grupo de 19 índios da tribo de Pinhalzinho chegou à aldeia numa kombi alugada. Segundo o vice-cacique, Sebastião Mário Alves, o grupo permanece no local até a semana que vem. ''Viemos visitar e dar apoio à aldeia que está sendo ameaçada. Na próxima semana, chegam mais 22 homens de nossa aldeia para reforçar a segurança''.
Com a chegada dos jagunços, a tensão aumentou na reserva. Os índios se sentem ameaçados porque alegam que os jagunços gritam assustando mulheres e crianças, fazem fogueiras e imitam os costumes indígenas, como danças e rezas. ''Eles passam aqui na frente, gritando, provocando a gente, com dois carros, um caminhão pequeno e motos, e se instalam no alto de uma área, na fazenda vizinha, de onde ficaram nos observando durante toda a noite'', afirmou o professor.
Por causa disso, a vigilância também é constante. ''Nossos homens passam a noite em claro, preparados para defender a aldeia''. Doze índios ''mais preparados'', ficam espalhados pelo mato, fazendo a vigilância das famílias. De acordo com as regras dos guaranis, a partir dos 14 anos, os rapazes já estão aptos para lutar e defender sua tribo, preservando principalmente a vida de mulheres e crianças.
Para evitar confrontos, as crianças estão proibidas de sair da aldeia e os índios só estão indo até a cidade em caso de extrema necissadade.

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