Moradores de Cornélio Procópio, no Norte do Estado, como de todo o Brasil, se chocaram com as imagens do vídeo com cenas de tortura contra uma criança de três anos, que começaram a ser divulgadas pela televisão na sexta-feira passada. Porém, a cidade ficou também decepcionada. O torturador, o assaltante Marcelo Moacir Borelli, 33 anos, era visto ali, onde morou na infância e adolescência, como um anti-herói: o bandido inteligente e organizado, capaz de elaborar e executar com perfeição grande assaltos.
‘‘Ele despertava simpatia pela ousadia. Imagine, sequestrar um Boieng, roubar carros-fortes, esse lado aventureiro, roubando dos grandes e não ferindo ninguém’’, justificou A.V., um amigo da família Borelli, que pediu para não ser identificado.
O caso Borelli é o assunto mais comentado nas rodas de conversas na cidade. Porém, as pessoas evitam comentá-lo na frente de estranhos. Poucos foram os que admitiram à Folha conhecer Marcelo ou sua família. Um radialista resumiu a situação: ‘‘O pessoal está com medo de comentar. A quadrilha dele ainda está solta. E ele é vingativo.’’
A família de Marcelo Borelli ainda reside na cidade e hoje sofre as consequências por seus atos. ‘‘São eles que estão sofrendo. São gente boa, trabalhadeira, não mereciam isso’’, afirmou A.V. Os irmãos Antônio Marcos e Toni Borelli, proprietários de dois supermercados na cidade não falam sobre o irmão. ‘‘Para os dois, o Marcelo morreu’’, garantiu. A mãe, a professora aposentada Maria de Lurdes Carvalho Borelli, doente, não sai mais de casa. ‘‘O vídeo foi demais para ela, ficou muito mal, deprimida’’, contou A.V.
Segundo pessoas que conviveram com Marcelo na adolescência, ele foi um garoto estranho. A.V. diz que ele tinha uma personalidade ambígua. ‘‘Tinha horas que parecia distraído, meio bobão mesmo. Em outras, era agitado, nervoso. Ele tinha muitos problemas com o pai’’, disse. Por causa de sua revolta com o pai – Antônio Moacir Borelli, um grande cerealista na cidade até abrir falência em 1990 – Marcelo chegou a colocar fogo na casa da família, com a mãe dentro, uma ocorrência até hoje comentada. ‘‘Ele tinha 17 anos quando pôs fogo na casa. Não foi preso porque a família abafou. Mas logo depois pegou cadeia pela primeira vez, quando servia o Exército, em Curitiba. Agrediu o sargento a coronhadas de rifle’’, lembrou outro amigo, G.O (pediu para ter sua identidade preservada), que chegou a morar com Borelli em Londrina.
Para G.O, Borelli sempre foi um psicopata. ‘‘Ele é uma pessoa fria, sem emoções, embora nervoso. Brigava por qualquer coisa mas não perdia a cabeça, batia nos outros como se estivesse fazendo algo totalmente diferente’’, contou. Mesmo assim, confessa que ficou chocado ao ver cenas com a tortura. ‘‘Tenho pesadelos todas as noites. O pior é saber que alguém que foi seu amigo fez isso’’, afirmou.