Clima é tenso em área desocupada
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domingo, 29 de março de 1998
Jackeline Seglin 
Paulo WolfgangAté ontem à tarde continuava tenso o clima entre os moradores do Conjunto Aquiles Sthengel, zona norte de Londrina, onde na sexta-feira aconteceu um conflito entre moradores e um grupo de sem-teto. Depois de invadir o campo de futebol do conjunto, os sem-teto foram expulsos pelos moradores contrários à ação, que derrubaram e atearam fogo nos barracos. A confusão foi grande e envolveu homens, mulheres e crianças. O resultado foram algumas pessoas machucadas e a expectativa de novo confronto.
Ontem, o campo invadido já não tinha nenhum barraco. A agitação ficou por conta dos 22 jogadores que disputavam mais uma partida de futebol. Mas fora do campo, moradores do bairro e sem-teto estavam tensos e trocando provocações. Os sem-teto foram para a casa de parentes da região e permaneceram a tarde toda nas calçadas, do lado oposto do campo.
Para Shirley Celestino de Oliveira, do grupo de sem-teto, toda a confusão foi causada pelos jogos de futebol. Eles não querem perder o campo, que na verdade é um causador de briga. Toda vez que tem jogo aqui, tem confusão e sai até facada, reclama. Segundo uma moradora do Jardim dos Campos (assentamento ao lado do campo), há mais de três meses não aconteciam jogos no local.
Paulo WolfgangBarril de pólvoraSem-teto (alto) e moradores do bairro (ao lado) trocaram acusações durante partida de futebol ontem à tarde, no campinho desocupado à força. Invasores temem mortes se as autoridades e a polícia não intervieremUm morador contrário à invasão, que não quis se identificar, argumenta que há 45 dias eles estão tentando deixar o gramado do campo crescer, por isso não há jogos.
A briga, na verdade, vai além de uma simples partida de futebol. Vamos invadir de novo, é só dar um tempo. E vai sair morte. Se o prefeito não olhar por nós, qualquer hora vai ter gente morta por aqui, diz uma das invasoras, identificada como Carmen.
A dona de casa Josi Silva, que na hora do conflito estava fora do campo, conta que o filho de 11 anos tinha um pedaço de plástico queimado grudado nas costas. Quando cheguei lá, já estava tudo derrubado. Machucaram meu menino e empurraram o barraco pra cima de outra filha minha.
A desempregada Cláudia dos Santos ocupava um dos barracos que foram destruídos na sexta-feira. Não quero nem lembrar. Parecia um monte de vândalos; machucaram até criança. Eles querem fazer justiça com as próprias mãos. Não é assim que funciona. Cláudia conta que antes da invasão, os sem-teto foram ameaçados de ter os barracos queimados. Mas como a maioria das pessoas que invadiu o campo é de mulheres e crianças, a gente não acreditou que fosse acontecer uma coisa dessas, lamenta.
Do outro lado, os moradores também exigem uma atitude para resolver a questão.O prefeito disse que era pra gente mesmo tirar esse pessoal do campo. Nós estamos pedindo ajuda, mas ninguém vem socorrer. Chamamos a polícia antes da invasão e eles só vieram depois. Queremos ajuda das autoridades, seja da polícia, do prefeito ou da Cohab, diz uma moradora identificada como Helenice. Ela é moradora do Conjunto Luís de Sá e na sexta-feira de manhã foi até o Aquiles e derrubou dois barracos. A Folha tentou falar com o prefeito Antonio Belinati, que estava em Curitiba, mas não teve retorno da ligação.
Os moradores que participaram do conflito reclamam que também receberam pauladas e pedradas. O plantão do 5º Batalhão da Polícia Militar informou que viaturas patrulharam a área e até o início da noite o clima estava aparentemente normal.


