Todos os menores do Ciaadi falam com facilidade sobre os crimes que cometeram, apesar de nunca se referirem diretamente ao que fizeram, usando os números do código penal para identificar a infração. ''Caí por 155 (furto) 157 (assalto à mão armada) e 12 (tráfico)''. De maneira geral, sabem que o que fizeram foi errado. Mas nem todos admitem que vão deixar de cometer crimes.
Pedro (os nomes são fictícios), 15 anos, foi apreendido pela PM enquanto vendia crack em Arapongas, onde morava. Garante que não é viciado e que não precisa mais do ''emprego''. ''Sei que estou deixando minha mãe louca. Nem sei o que estou fazendo aqui, fiz besteira mesmo'', afirma. ''Vai ficar numa boa?'' ''Vou, claro.''
Mas o efeito ressocializante não é a única vantagem do Ciaddi. Alguns dizem se sentir protegidos enquanto presos. ''Tenho muita 'bronca' lá fora. Aqui, pelo menos, sei quando estou correndo perigo, não posso ser pego de surpresa'', contou João, 14 anos.
O lado ruim fica por conta do clima de provocação e da violência na unidade. José, 19 anos, é o exemplo mais claro. É um rapaz aparentemente tranquilo e que transmite confiança aos educadores. Todos sabem que um rodinho esquecido na cela dele não se transformaria em um estoque. A paciência com que conversa, porém, tem limites.
á- Não aguento mais esses piás me provocando. Qualquer hora, vou dar uma estocada na cara de um.
- Pára com isso, rapaz. Quer ficar mais tempo aqui?
- Não, mas também não quero ficar ouvindo merda de moleque que não 'corre' comigo...''
Violência sexual também se inclui no repertório juvenil. Apreendido por participar de um estupro em Assaí, Marcelo, 14 anos, viu a agressão se virar contra ele, quando foi encaminhado para o Educandário São Francisco, em Curitiba. ''Ele foi estuprado por um grupo de menores'', contou a psicóloga do Ciaadi. E o que poderia se transformar em um trauma tomou formas de um problema muito mais complexo. ''Ele misturou as coisas. Criou um problema com a própria sexualidade e passou, de certa forma, a gostar de manter relações com outros meninos'', continuou.
Para desespero dos funcionários do Ciaadi, a descoberta de que Marcelo estava mantendo relações com outros menores veio junto com outra notícia: um dos companheiros de cela dele possui um histórico de aliciamento de menores. ''Marcelo passou a se recusar a ficar sozinho em uma cela. Queria companhia, provavelmente para continuar a ter relações'', especulou um dos educadores. Daquele dia em diante, o menino, protestando muito, passaria a almoçar e dormir no banheiro da unidade, por falta de celas.
Ninguém no Centro soube dizer com qual frequência este tipo de agressão acontece. Neste caso, os menores são a maior fonte de informação, embora nem sempre confiáveis. Um deles, ao reparar na presença de um estranho (o repórter da Folha) entre os educadores, disparou: ''Você vai comer toda a mulherada daqui, heim?'' Ao ser questionado sobre o que estava falando, continuou: ''Se os educadores, que são feios, comem todo mundo, você, que é pinta, vai papar na hora que quiser''.
Entre os educadores, psicólogos, assistentes sociais e a direção do Ciaadi, não há consenso sobre a eficácia do sistema enquanto proposta de ressocialização de menores infratores. Todos contam com o caráter de cada adolescente na hora de dizer se ele pode ou não ser recuperado. ''Não há ninguém aqui que seja 100% confiável, nem ninguém que não merece uma chance de voltar à sociedade. Infelizmente, só saberemos depois que estiverem livres'', afirmou um dos educadores.
A própria diretora da instituição mostra-se resignada quando fala das possiblidades de recuperação. ''É uma equação que quase sempre apresenta resultados negativos. Mesmo que o Ciaadi funcionasse em condições ideais, e não funciona, os meninos enfrentariam muitas dificuldades ao voltar para as ruas. O preconceito é grande'', acredita Odila Guimarães.
As ''broncas'' assumidas pelos menores também se transformam em um problema que, segundo um educador com mais de 30 anos de experiência com adolescentes infratores, não os deixam abandonar o crime, mesmo que eles queiram. ''Muitos deles estão jurados de morte nas cidades onde vivem e, mesmo tentando levar uma vida justa, acabam se vendo obrigados a cometer outros crimes, até para se defender. É triste falar isso, mas depois que eles entram nesse sistema, não há mais volta''.

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