Clara (nome fictício) tinha cinco anos de idade quando flagrou, junto com a irmã, o pai com a amante na cama. Ele foi implacável: chegou a ameaçar as duas meninas, com uma faca que ficava no criado mudo, caso contassem o episódio para a mãe. ‘‘Bico calado’’, sentenciou.
Aos sete anos, depois que o pai sumiu de casa sem nunca mais dar notícias, Clara passou a conviver com o padastro. Mas não foi fácil: dividia as manhãs, tardes e noites entre as brincadeiras infantis, a escola e as surras que invariavelmente levava. Apanhava muito.
Depois de alguns anos, Clara ficou apaixonada. Ela com 15 anos, o garoto com 18. Afetuoso, ele preenchia o vazio gerado pelos maus tratos de casa - que Clara abandonou, junto da escola, nos primeiros meses de relacionamento. Foi a oportunidade que ela vislumbrou de, finalmente, tentar construir um lar, com móveis, eletrodomésticos, e a esperança de futuro diferente.
Só tinha um problema: viciado em crack, o companheiro não ficava um só dia sem fumar. E o pior: para manter o vício, passou a integrar o esquema de tráfico montado no bairro.
Clara contornava as crises do companheiro, provocadas pelos sintomas das drogas, ao mesmo tempo em que aumentava a própria participação no tráfico. Até que um dia foi flagrada vendendo drogas. Mentiu para a polícia, dizendo que fazia isso a revelia do companheiro. Queria livrá-lo da acusação para que ele, mais velho, não fosse preso. Como na época do pai, ficou de bico calado e não informou de onde vinha a droga que vendia. ‘‘Tenho medo que aconteça alguma coisa.’’
Foi um Natal e um reveillon diferentes. Nada de brigas de família ou frustração pelo presente que não chegou. Nada de afago do companheiro ou festas com os amigos. Atrás das grades, pensou apenas no futuro. E teve medo de ver os novos sonhos destruídos. ‘‘Se voltar pra casa, fujo de novo’’, repetia. (L.H.)

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