Tornar-se mais desejável para o marido era o que buscava a dona de casa R.M. M., 52 anos, quando entrou no consultório de um cirurgião plástico londrinense, em março de 1996. A história tinha tudo para dar certo: o médico inspirava confiança e as cirurgias estéticas já eram, naquele ano, bastante comuns. O desfecho, no entanto, foi bem diferente do que ela imaginava.
Depois de se submeter a duas plásticas, uma para redução dos seios e outra para diminuir o abdômen, R. se deparou no espelho com uma mulher mutilada. Os seios ficaram assimétricos, a região pubiana foi estranhamente esticada e o umbigo se mostrou disforme. A desilusão se completou quando ela descobriu que o autor das operações mal sucedidas não era um especialista.
Apesar de ter ostentado, na época, uma placa que indicava ''Cirurgia Plástica'' em seu consultório, o médico em questão nunca possuiu habilitação para atuar na área, como atestam os registros do Conselho Regional de Medicina (CRM) do Paraná. O caso foi parar na Justiça e deu a R. mais um desgosto: o de aguardar uma sentença que, até hoje, não saiu.
A dona de casa não está sozinha na ação civil que tramita na 7 Vara Cível de Londrina desde 1997. Outros cinco pacientes, sendo quatro mulheres, exigem indenização por danos causados após cirurgias plásticas feitas pelo médico entre 1992 e 1996. Cada uma guarda suas lembranças e sequelas. ''Eu vivia chorando. Você pensa que vai ficar linda e de repente não consegue se sentir bem em roupa nenhuma'', diz L.O., 58 anos, que passou por uma lipoaspiração e uma cirurgia nos seios.
R., que afirma ter procurado vários médicos que pudessem reparar suas lesões, hoje fala com resignação. ''A essa altura da vida não me arriscaria a fazer uma nova cirurgia. Estou com diabetes e, de qualquer forma, meu casamento já está arruinado''. Ela e os outros autores da ação pedem indenização de 100 vezes o valor de cada cirurgia. O processo está sob responsabilidade do juiz José Cichoki Neto, em fase de emissão de sentença. A reportagem da Folha pediu ao juiz que comentasse a demora no julgamento do processo, mas ele disse ''não se recordar do caso''. No CRM, não houve nenhuma punição contra o médico, que continua exercendo a profissão.
Cálculos superficiais apontam que 1,5 mil médicos sem especialização estejam atuando como cirurgiões plásticos no Brasil, mas o número pode ser bem maior. Para o diretor regional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) no Paraná, José Carlos Miranda, o aumento do número de profissionais que se ''aventuram'' nessa área acompanha o inchaço do mercado. ''É uma combinação do número excessivo de escolas médicas no país com a baixa remuneração profissional'', justifica. Ele aponta o exemplo da cidade de São Paulo, onde existe um médico para cada 260 habitantes quatro vezes mais do que preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS). ''A concorrência é tanta que muitos médicos resolvem invadir especialidades alheias'', acrescenta.
Para esses, o ramo da cirurgia plástica é um prato cheio. Em 2002, segundo estimativa da SBCP, foram realizadas 370 mil cirurgias do gênero no Brasil. Entre os pacientes, 70% eram mulheres e 30%, homens. Os adolescentes, até o ano passado, já respondiam por 15% da demanda. No topo das cirurgias mais procuradas aparece a lipoaspiração, seguida pela redução de mamas e os procedimentos cirúrgicos na face. O número de reclamações contra profissionais que atuam na área é igualmente grande. A cirurgia plástica ocupa o terceiro lugar no ranking de denúncias apuradas pelo CRM do Paraná, atrás apenas de ginecologia e obstetrícia.

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