Cirurgia exige
bom preparo
psicológico
Londrina

Milton Dória‘‘É uma cirurgia muito interessante e cara. Tecnicamente é bastante difícil’’
Marco Aurélio Rodrigues, urologista Em Londrina, o único hospital com chance de realizar a cirurgia de transgenitalização é o Universitário, ligado à Universidade Estadual de Londrina. Mas o prazo para que o hospital tenha condições de realizar o procedimento é de dois anos, no mínimo, avisa o coordenador do curso de Urologia da UEL, Marco Aurélio de Freitas Rodrigues.
O médico acredita que a Resolução do Conselho Federal de Medicina permitindo a cirurgia foi um avanço. Ele elogia a idéia do CFM em restringir o procedimento aos hospitais públicos e universitários, evitando a exploração dos transexuais que, segundo ele, são pacientes bastante vulneráveis psicologicamente. O professor do curso de Medicina da UEL também lembra que o prazo de dois anos, para acompanhamento psicológico e médico, antes da operação, é muito importante.
Marco Aurélio Rodrigues diz que já acompanhou algumas operações deste tipo em um hospital dos Estados Unidos, onde estagiou. ‘‘É uma cirurgia muito interessante e cara. Tecnicamente bastante difícil’’, revela. Ao contrário do que muita gente pensa, o pênis não é cortado, mas invertido e colocado para dentro, permanecendo em um espaço abaixo da uretra. Só os testículos são removidos. A glande, explica o médico, é aproveitada para estímulo sexual, como o clitóris, no aparelho sexual feminino.
No caso das mulheres que desejam ter a genitália masculina, a cirurgia é ainda mais complicada, diz Marco Aurélio Rodrigues. ‘‘É preciso fazer um neopênis’’. O médico explica que o órgão é construído usando uma parte do músculo retirado do braço - através de uma microcirurgia -, junto com artérias, veias e nervos. Além disso, é necessário o uso de prótese peniana. ‘‘As cirurgias envolvem ainda um suporte hormonal.’
O professor lembra que seriam necessários dois anos para que o pessoal do HU - médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros - fizesse um treinamento antes de começar a realizar a cirurgia. O aperfeiçoamento poderia ser feito, segundo ele, no exterior ou no Hospital das Clínicas de São Paulo, um dos únicos capazes de realizar o procedimento no Brasil.
O presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM), José Luiz de Oliveira Camargo, tem uma opinião mais pessimista. Ele não acredita que a cirurgia de transgenitalização seja realizada antes de 10 anos em Londrina. O médico, que é professor adjunto de Ginecologia da UEL, constata que o Hospital Universitário não tem equipamentos ou leitos suficientes para serem destinados a esses pacientes.
Na opinião de José Luiz Camargo (foto), a aprovação desta lei é uma atitude ‘‘hipócrita’’. ‘‘Não sou contra e respeito as pessoas que precisam fazer a operação. Mas o SUS (Sistema Único de Saúde) não tem recursos para arcar com os custos’’, justifica. ‘‘O HU vive uma realidade econômica lamentável. Mal tem dinheiro para socorrer os pacientes que chegam ao hospital com risco de vida.’ O presidente do CRM acredita que os centros maiores vão ter condição de oferecer a cirurgia mais rapidamente que Londrina.
(Adriana De Cunto)

mockup