Cirurgia é alternativa contra epilepsia
Especial para a Folha
A imagem de uma pessoa com convulsões, perda de sentido, salivação excessiva, em uma típica crise de epilepsia, sempre foi vista com grande preconceito pela maioria das pessoas, que não sabe como lidar com uma situação destas. Os números deixam este quadro ainda mais difícil: estima-se que 150 mil paranaenses sejam portadores de epilepsia, de acordo com a estatística mundial que prevê que 1,5% da população sofre deste mal.
Mas embora a epilepsia esteja relacionada, popularmente, com esta cena (convulsões, queda, hipersalivação etc), chamada de crises generalizadas, este quadro atinge entre 20 a 25% dos pacientes. A maioria tem apenas epilepsia parcial, que pode ser simples, na qual o paciente não perde a consciência, apenas desliga, divaga, ou complexa, onde o paciente também desliga, mas pode ter diferentes manifestações motoras, acompanhadas de inconsciência. Seja com convulsões ou não, a verdade é que a vida de uma pessoa com epilepsia é marcada por dificuldades. Começa com o preconceito na escola, problemas com os amigos até chegar á dificuldade em conseguir emprego.
As novidades da medicina, entretanto, estão trazendo novo alento para os portadores de epilepsia. Trata-se de uma cirurgia, que está sendo feita em Curitiba desde 1994, com grande sucesso, possibilitando que até 75% dos pacientes operados fiquem completamente livre das crises.
Segundo o professor adjunto de Neurocirurgia da Universidade Federal do Paranã, dr. Marlus Moro, doutor em neurologia e membro da American Epilepsy Society, 80% dos pacientes conseguem controlar a epilepsia com remédios, enquanto 20% são considerados refratários. Para estes é que a cirurgia é indicada. Segundo ele, após 150 cirurgias feitas desde 94, pode-se concluir que 90% dos pacientes apresentam melhora expressiva e 75% ficam livres das crises após a operação.
A epilepsia não é uma doença, mas sim uma maifestação clínica de múltiplas e diferentes causas, desde congênitas, perinatais até adquiridas, como traumáticas, vasculares, tumorais, inflamatórias. Ela é causada por uma descarga elétrica súbita, excessiva e paroxística (que aparece em repetidas ocasiões), originada em um grupo de neurônios.
A cirurgia mais frequente consiste em retirar a área epileptogênica (área onde nasce a crise epilética). Ele explica que o sucesso na intervenção deve-se ao progresso nas técnicas de investigação e de definição da área do cérebro que determina a epilepsia, além dos recursos neurológicos hoje existentes.
O resultado é maravilhoso. Tem gente que tinha crises diariamente e após a operação voltou a trabalhar, tem vida normal, conta o neurologista. Entre seus pacientes que se submeteram a cirurgia está um padre, de 45 anos, que sofreu com convulsões dos 5 aos 13 anos, depois as crises pararam até voltarem aos 21 anos. Ele tinha crises generalizadas e parciais frequentes. Operou em fevereiro deste ano e nunca mais teve crises. Ele conta, ainda, o caso de outra paciente, de 44 anos, que foi operada há um ano. Ela teve crises febris na infância, crises dos 5 aos 10 anos. O quadro de crises também parou até voltar aos 17 anos. Ela, inclusive, teve que deixar seu projeto de ser freira porque as freiras do convento não a aceitavam deste modo. Depois de operada, nunca mais teve crises.





