A cirurgia bariátrica é atualmente o método mais eficaz de tratamento da obesidade mórbida no mundo. O resultado, porém, depende diretamente de uma readaptação completa de vida do paciente depois do procedimento. E é justamente aí que muitos deles pecam. O cirurgião bariátrico Caetano Marchesini, de Curitiba, revela que entre 10% e 15% dos pacientes operados voltam a engordar, número que tem preocupado os especialistas no assunto.
"O grande problema da pessoa operada, muitas vezes, é que ela cria uma expectativa de que vai poder continuar tendo a mesma vida de antes da cirurgia, com lanches, happy hour, bebida alcoólica, e isso não é possível", alerta o médico.
Com mais de 25 anos de experiência na área, o médico destaca que o não cumprimento da cartilha pós-operatória pode implicar na volta, muitas vezes até mais intensa, dos problemas e doenças apresentadas antes do procedimento, como hipertensão arterial e colesterol alto. "Não é mágica, é preciso entender que se trata de uma doença crônica, sem cura. A cirurgia é uma oportunidade de perder 40, 50 quilos. Já tive pacientes que perderam 100 quilos. Então é a chance de emagrecer e permanecer magro para o resto da vida, desde que realize o acompanhamento e seja vigilante para com seu peso", ensina.
O problema é que, mesmo com o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliando o número de atendimentos, a lista de brasileiros obesos só aumenta. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) apontam que a quantidade de cirurgias bariátricas cresce em média 10% ao ano no Brasil. Atualmente, segundo o médico, 14 milhões de pessoas no Brasil aguardam pelo procedimento, em todos os convênios, incluindo o SUS. "A pessoa chega no consultório, a gente contraindica a cirurgia e ela volta um ano depois com o peso para fazer a cirurgia, e não temos como segurar isso", revela.
Para o cirurgião, uma análise destes indicadores é determinante para uma mudança urgente no foco do tratamento da obesidade no Brasil e no mundo. "A questão central é que estamos tentando resolver o problema em sua parte final, quando na verdade deveríamos estar focados no início do problema, que é a infância, cuidar para que as crianças não se tornem obesas. Está faltando uma atenção especial à educação alimentar das crianças", cobra o especialista.
A última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que a obesidade atinge 5,9% de garotos e 4% das garotas entre dez e 19 anos. Apesar de não serem recentes, os dados de 2010 refletem a realidade atual nos consultórios médicos: cada vez mais, os pais procuram ajuda profissional para reduzir o peso dos filhos. "Vivo de cirurgia bariátrica, mas vou dizer que não estou feliz, pois hoje recebo cada vez mais jovens em minha clínica, pais com crianças. Está aumentando muito o número de obesos nessa faixa etária e isso é muito preocupante", reforça Marchesini.
Na tentativa de tentar ao menos amenizar o problema, o cirurgião criou um projeto que pode virar lei em breve em todo o Paraná. Ele prevê, entre outras ações, a inclusão de uma matéria denominada "Educação Alimentar" na grade curricular para crianças entre 7 e 11 anos; e a criação do "Selo Verde" para alimentos saudáveis. "Os pais estão colocando muita confiança nas escolas. É mais fácil a mãe jogar um pacote de bolachas na lancheira do seu filho do que fazer um sanduíche mais leve, natural. Elas têm participação ativa em casa hoje, vemos crianças corrigindo os pais com relação à conduta, por que não em relação à alimentação? Temos que educar essas crianças para que elas sejam futuros pais conscientizados", cita Marchesini.
Pesquisa realizada pelo IBGE e divulgada em agosto deste ano mostra que mais da metade da população brasileira está acima do peso (56,9 %). Cerca de 82 milhões de pessoas apresentaram o IMC (Índice de Massa Corporal) igual ou maior que 25, incluindo os obesos. "Estamos prevendo uma legião de doentes no futuro. Atualmente, metade das crianças são obesas. É um número alarmante. Imagine que a expectativa para o futuro seja dobrar o número de obesos. Não há sistema de saúde que comporte isso", alerta o médico. A obesidade é considerada fator de risco para doenças crônicas como diabetes, hipertensão e para alguns tipos de cânceres.
Os médicos adiantam que para passar por uma cirurgia bariátrica é preciso ter IMC acima de 40, ou entre 35 e 40, desde que haja indicação por doenças relacionadas, como hipertensão, lesões em articulações, diabetes, apneia do sono e colesterol elevado. Jovens entre 16 e 18 anos precisam ter autorização dos pais ou responsáveis, registrada em cartório, além da indicação de outros médicos, como endocrinologista ou cardiologista.

mockup