Ciretran expediu 3 mil carteiras frias
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segunda-feira, 30 de novembro de 1998
Paulo Ubiratan 
Mais de três mil Carteiras Nacionais de Habilitação (CNH) frias foram expedidas pela 12ª Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran), de Londrina. As Carteiras foram entregues para motoristas antigos que precisavam renovar o documento. Os prontuários que dão legitimidade às CNHs são falsos e, na sua maioria, foram expedidos pelas Ciretrans de Santa Catarina e Minas Gerais.
A Folha apurou que o valor para a venda de cada carteira dependia do poder aquisitivo do cliente, variando entre R$ 200,00 e R$ 1,5 mil. A descoberta do golpe foi feita após uma denúncia encaminhada diretamente ao Departamento Estadual de Trânsito (Detran). O caso está sendo investigado por uma comissão da Coordenadoria de Investigação e Auditagem do órgão e pelo delegado Antonio Zuba de Oliva, do 2º Distrito Policial de Londrina.
Até a última sexta-feira, eles já tinham ouvido 23 pessoas. Alegando que iria atrapalhar as investigações, que estavam sendo feitas em sigilo, Zuba não quis revelar os nomes dos principais suspeitos.
Por intermédio de uma fonte, a Folha apurou que a maioria das carteiras frias foram fornecidas para pessoas que não passaram nos testes básicos para a renovação do documento. Após a reprovação, essas pessoas eram procuradas pelos quadrilheiros que lhes ofereciam a CNH mediante o pagamento da propina. A mesma fonte contou que uma das possíveis cabeças da quadrilha - conhecido apenas por Guarda - teria morrido de infarto ao saber que o golpe havia sido descoberto. A fonte também afirmou que duas policiais civis do Paraná estão sendo investigadas.
Preocupada, uma das pessoas que compraram a CNH fria procurou ontem a Folha e contou como ele se envolveu no negócio. Eu paguei R$ 250,00 em cheque e não sabia que o negócio era sujo. Acho que entrei numa fria. Pensei que era para facilitar a minha vida, não precisando perder tempo em filas para fazer o documento. O homem que me procurou para fazer a carteira tinha o apelido de Guarda. Momentos depois de entregar o cheque, outras pessoas entraram na jogada e me encaminharam à uma auto-escola. Dois dias depois, um funcionário da mesma auto-escola me procurou e me entregou em mãos a carteira de habilitação, sem problema algum.
A chefe da Ciretran de Londrina, Fátima Tavares, disse ontem que também havia recebido as mesmas denúncias e as encaminhou ao Detran. Quero que a comissão apure a fundo toda a verdade. Não estou acompanhando diretamente os trabalhos da comissão para que as investigações sejam feitas sem nenhum constrangimento.
Ela confirmou que o homem de apelido Guarda estava envolvido, mas enfatizou que ele não era a principal cabeça do golpe. Fátima também não quis revelar o nome de quem comandava a quadrilha. No entanto, adiantou que algumas auto-escolas londrinenses estão sob suspeita porque intermediavam a remessa dos prontuários à Ciretran e depois providenciavam as carteiras para entregá-las aos beneficiados.
Quanto à sua responsabilidade de checar os prontuários na origem de expedição, ela disse ser impossível. Os envolvidos se aproveitaram de nossa situação. Devido à grande demanda de trabalho, os funcionários do Ciretran de Londrina não têm tempo para checar a fundo todos os prontuários que chegam.
Fátima disse que apenas cinco Ciretrans no Brasil estão informatizadas e levaria muito tempo para fazer averiguação de documentos por telefone ou fax. Ela afirmou que a partir do próximo ano todas as Ciretrans estarão interligadas por computadores, o que vai facilitar a fiscalização no setor.


