Circular é enfrentar barreiras

Há nove anos, o então modelo e ex-BBB Fernando Fernandes perdeu o movimento das pernas após sofrer um acidente de carro. Desde então, ele afirma lutar para mudar os paradigmas que cercam a deficiência física. "Dizer que cadeira de rodas representa incapacidade é preconceito e, para provar isso, comecei a fazer tudo o que fazia antes do acidente, como saltar de paraquedas, motocross e tive também um quadro em um programa de televisão mostrando os esportes adaptados. Foi quando dei um choque visual na sociedade", contou. "Deficiência é uma coisa, incapacidade é outra", disse ele, que participou do lançamento oficial da parceria entre o Biomob e o laboratório Pfizer, em São Paulo.
Hoje, Fernandes é paratleta de canoagem, mas revela o desconforto com o termo usado para definir sua profissão. "Não tem pararquiteto, não tem paraengenheiro, por que chamar o atleta com deficiência de paratleta?"
Também foi um acidente de carro que deixou o servidor público aposentado Kleber Arantes paraplégico, quase 26 anos atrás. Em mais de duas décadas e meia, no entanto, ele viu poucas iniciativas em Londrina para garantir a acessibilidade de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Quando fazia parte do Centro de Vida Independente, há alguns anos, Arantes avaliou a acessibilidade do Calçadão em toda a sua extensão e o resultado foi desanimador. "Apenas 20% estavam adaptados."
Para quem tem problemas de mobilidade, contou o ex-servidor público, circular pela cidade é se deparar a todo instante com barreiras. "Tem meio-fio que não dá para subir para quem está sozinho, ruas com inclinação que dificultam a circulação, calçadas quebradas, buracos e lombadas. E em muitos banheiros públicos o acesso é impossível. Ou não dá para entrar ou você entra, mas não consegue fechar a porta. Já tive que pedir para amigos ficarem do lado de fora cuidando enquanto usava o banheiro com a porta aberta", disse.
E a lista de dificuldade é bem extensa. Kleber Arantes lembra dos apartamentos novos, nos quais as portas dos banheiros são estreitas demais, impossibilitando a passagem da cadeira de rodas, e recentemente deixou de fazer natação porque a única academia de Londrina totalmente adaptada para receber deficientes físicos encerrou as atividades. Ele também lembra do Teatro Zaqueu de Melo, onde a dificuldade começa logo na entrada, com acesso apenas por escadas. "Tudo tem sido feito pensando em uma sociedade perfeita, mas isso é uma grande hipocrisia", criticou.
"Garantir a acessibilidade a quem tem problemas de mobilidade é uma questão de boa vontade, de planejamento e organização. A acessibilidade tem mais a ver com isso", resumiu Fernando Fernandes. (S.S.)





