A crise provocada pela desvalorização do real está levando à extinção um segmento da economia informal que sobrevive do contrabando de cigarros na fronteira entre Brasil e Paraguai. Os cigarreiros, como são conhecidas as pessoas que são pagas para cruzar a Ponte da Amizade com caixas de cigarros contrabandeados, praticamente desapareceram. Os que restam, cerca de 150 pessoas, temem pelo sustento de suas famílias em Foz do Iguaçu e cidades vizinhas.
De acordo com cálculos dos próprios cigarreiros, desde o início de janeiro até agora o movimento na compra de cigarro importado caiu cerca de 90%. O cigarreiro Roberto da Silva, 24 anos, atua desde 1995 na ponte. Antes da desvalorização da moeda brasileira, segundo ele, cada cigarreiro trazia diariamente para o Brasil 100 caixas de cigarro, em média. ‘‘Agora a gente consegue trazer 100 caixas por semana. Se continuar desse jeito não sei o que será de nós. Vamos todos passar fome, porque não existe emprego aqui em Foz’’, disse. Ele estima que cerca de 1,5 mil pessoas vivem do ‘‘transporte’’ de cigarros contrabandeados na fronteira.
Edson MazzettoPrejuízoLojinhas do camelódromo da Rua Carlos Gomes, em Cascavel: freguesia sumiu e os estoques estão encalhadosSilva, que também é uma espécie de ‘‘agenciador’’ de cigarreiros, disse que muitos companheiros estão enfrentando dificuldades porque os sacoleiros deixaram de vir comprar cigarro no Paraguai. ‘‘Conseguíamos ganhar entre R$ 10,00 e R$ 50,00 por dia. Agora, em alguns dias da semana a gente não ganha nada porque não compensa comprar cigarro importado’’, ressalta.
No ano passado, a Receita Federal apreendeu o equivalente a US$ 330 mil em cigarros contrabandeados. O produto continua sendo o campeão de apreensões na fronteira. De acordo com a RF, representa 60% do volume de mercadorias apreendidas. Em todo o País, o contrabando de cigarros representa US$ 1 bilhão em desvio fiscal, diz a RF. No Paraguai, a caixa com 50 pacotes dos cigarros mais consumidos no Brasil custa entre US$ 100,00 e US$ 350,00.
As estratégias usadas pelos cigarreiros para fugir da fiscalização e da Polícia Federal são arriscadas e exigem que eles façam verdadeiros malabarismos. Depois de serem contratados pelos sacoleiros para apanhar a mercadoria nas lojas de Ciduad del Este, as duas caixas que eles carregam juntas de cada vez, e que pesam cerca de 60 quilos, são levadas para o meio da ponte, ainda no lado paraguaio.
Os cigarreiros trabalham em equipes de 40 pessoas, entre ‘‘olheiros’’ (aqueles que vigiam os movimentos da polícia para saber o momento exato de atravessar a ponte com o cigarro), agenciadores e os transportadores. O olheiro fica do lado brasileiro da ponte. Quando percebe que a polícia está longe, faz um sinal e o grupo corre até quase o final da extensão da ponte, que tem 552 metros, de onde atira as caixas por entre as telas danificadas da grade de proteção para as margens do Rio Paraná.
Lá embaixo, outra parte da equipe apanha as caixas e foge por uma trilha aberta no mato. Para escapar da fiscalização, é preciso caminhar cerca de quatro quilômetros. Cada cigarreiro recebe R$ 5,00 por caixa de cigarro transportado.
O crime de contrabando dá de dois a quatro anos de prisão, mas é passível de fiança. Segundo a Polícia Federal, somente no ano passado, cerca de 300 cigarreiros foram presos.
O delegado-chefe da PF em Foz do Iguaçu, Airton Vicente, explicou que a fiscalização na ponte não diminuiu por causa da queda no movimento dos sacoleiros, mas por causa na redução do efetivo em 70%, devido às férias. Vicente disse que a PF está adotando estratégias para prender também os donos dos cigarros contrabandeados e não somente os cigarreiros. ‘‘Estamos atrás dos que lucram com esse contrando.’’

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