Ciganas despertam crença e hostilidade
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quinta-feira, 12 de agosto de 2004
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
''Quer ler a mão? Não vou te cobrar nada''. A proposta já é velha conhecida dos frequentadores do Calçadão de Londrina. É a abordagem mais usada pelas ciganas que se concentram diariamente no local, na tentativa de convencer até os mais incrédulos a escutar adivinhações sobre o passado, o presente e o futuro. Não raro, elas seguram o braço dos transeuntes e só soltam depois de receber um ''sim'' ou uma resposta hostil.
O grupo, formado por cerca de 10 mulheres de idades variadas, se destaca da maioria pelos trajes tradicionalmente associados ao povo cigano: saias e vestidos longos, de tecidos plissados e multicoloridos, além de fitas adornando os cabelos castanhos e compridos. Embora não seja nova, a presença de ciganos no Centro da cidade se intensificou desde janeiro deste ano, especificamente no trecho do Calçadão entre as avenidas São Paulo e Pernambuco.
Sem se identificar, a reportagem da Folha se submeteu aos dotes místicos anunciados pelas ciganas. Ao ser abordada por uma delas da maneira usual, a repórter questionou se o préstimo seria realmente gratuito. O discurso logo mudou: ''Só R$ 1, R$ 2. Você dá o que puder''.
Depois de aceitar, a nova cliente foi conduzida a um canto mais ''reservado'' do Calçadão, junto a um poste. Segurando a mão direita da repórter, a cigana se pôs a desfiar, com rapidez, uma série de observações sobre a vida e a personalidade da cliente. ''Terá vida longa, só vai morrer bem velhinha, viu?'', foi a primeira previsão, dita com um sorriso. ''Jovem querida, mas meio nervosa. Já chorou muito, teve desgosto grande na vida, não é?'', instigou.
O clímax da consulta foi a revelação de um suposto ''trabalho'' encomendado por uma pessoa conhecida da repórter. ''Amiguinha sua pôs seu nome no pé da mandinga com nove velas acesas'', disse. Segundo a cigana, o objetivo teria sido atrapalhar a vida amorosa da vítima do feitiço. Para desfazê-lo, a mulher solicitou R$ 5 e, diante de sucessivas recusas, demonstrou sua persistência. ''Pegue aquele dinheiro que você tem pra pagar uma conta. As contas vêm e vão, a felicidade não''.
Depois de conseguir o dinheiro, a cigana fez uma prece simulando um desenho na mão da repórter e lhe deu três pedrinhas para protegê-la. Pediu mais R$ 10 para revelar o nome da autora do feitiço e, como dessa vez não teve sucesso, deixou a repórter partir tranquilizando-a: ''Agora você vai se casar e ter dois filhos, um casal''.
Como todo tema que envolve misticismo, a atuação das ciganas polariza opiniões. O estudante Felipe Malquimus, 24, opinou que o dom de ler mãos é uma fraude. ''Ninguém pode prever nada, o futuro a Deus pertence'', afirmou. Ele também se diz tão incomodado com a abordagem das ciganas, que às vezes desvia o caminho para evitá-las. ''Elas chegam a ser agressivas'', reclamou.
A Folha entrevistou dois vendedores que haviam acabado de se consultar com as ciganas no Calçadão. Celso Aparecido Rodrigues, 23, que é católico, estava surpreso com o grau de acerto das revelações de uma cigana. ''Estou 'de cara'. Ela contou quem tinha feito um trabalho contra mim, e o mais incrível é que disse o nome e o sobrenome de uma ex-namorada minha'', relatou.
Zenilda Caetano Rocha, 33, evangélica, ressaltou que a cigana acertou em cheio ao dizer que ela era muito invejada. ''Acho que elas têm um dom divino, como todos nós temos, e sabem aproveitá-lo. Tem que ter muita fé em Deus para desfazer uma bruxaria''.


