Cidade viveu época dourada
''Naquela época, até criança andava de táxi'', frisa o diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Wilson Ramalho Matta, ao recordar os 15 anos 1970/1985 em que o dinheiro do rami fez a economia de Uraí girar feito furacão. Como não havia desempregado, porque os trabalhadores mais eficientes eram disputados a tapa pelos patrões, até crianças eram arregimentadas para atuarem na colheita e processamento da planta.
Na capital mundial do rami, a cultura chegou a ocupar 22% da área total do município, ou o equivalente a 3,5 mil hectares de terra, conforme aponta reportagem publicada pela Folha em novembro de 1980. ''A gente mesmo chegou a emitir carteira de trabalho para criança de 12 anos. A pessoa poderia deixar o emprego hoje e amanhã já estava trabalhando em outra plantação'', fala Matta. E a grande procura por mão-de-obra refletia nos ganhos: pagava-se uma diária equivalente a quatro vezes o que um trabalhador rural ganha hoje no município.
Na outra ponta, a dos produtores, a planta reluzia feito ouro. Susumo Itimura, 89 anos, conhecido como o rei do rami, chegou a ter cerca de 600 alqueires cultivados e empregar quase mil pessoas. O quilo da fibra era comercializado a US$ 1,00 e cada alqueire produzia entre 10 e 12 toneladas. ''Meu pai comprou uma fazenda de cinco mil alqueires no Paraguai com o dinheiro de três safras'', revela Luiz Itimura, um dos filhos de Susumo. As terras teriam custado à época US$ 8 milhões. Hoje, o ex-rei do rami está em seu quarto mandato como prefeito e dedica-se ao cultivo de café e soja. O patriarca argumenta que apostou no rami junto com outros quatro irmãos justamente porque era uma cultura que empregava muita mão-de-obra. ''Sempre tive essa preocupação'', completa.
O comércio local também lembra com saudades daqueles tempos. A loja de ferragens aberta há 50 anos por Asayo Shimomura Yanase (já falecido) viveu esses anos áureos de milagre econômico. ''Naquela época era bem melhor. As pessoas pagavam em dinheiro e no dia certinho. Meu pai, por exemplo, criou os seis filhos com a loja'', recorda-se uma das filhas. Ela completa que hoje em dia, o negócio se ressente da ''crise'' vivida pela agricultura.
Os dias de vacas magras, aliás, refletiram até na demografia. O município que chegou a contar mais de 40 mil habitantes tinha uma população de 11.874 mil habitantes em 2000, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que diminui 0,54% a cada ano. Este fato é agravado pela extensa colônia nipônica que vive na região. Nas últimas décadas, tem sido cada vez maior o número de descendentes de japoneses que deixam Uraí em busca de chances melhores no lado oposto do globo. (L.A.)





