Marcos NegriniMais habitantesAcampamento da fazenda Dois Córregos, em Querência do Norte. População rural cresceu e reforma agrária virou ‘vocação’ do municípioUm pequeno município da região Noroeste, Querência do Norte (113 quilômetros de Paranavaí), pode ser considerado hoje como uma das ‘‘capitais’’ da reforma agrária no Estado. Segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), em Querência do Norte e dois municípios vizinhos, Santa Cruz do Monte Castelo e Santa Isabel do Ivaí, existem 16 áreas ocupadas, onde vivem cerca de 700 famílias. Mais 500 famílias vivem em assentamentos, o que dá um total de aproximadamente 1.200 famílias sem-terra nos três municípios.
Segundo a Polícia Civil, a população de trabalhadores rurais sem-terra nos três municípios, incluindo todos os familiares, chega a seis mil pessoas. O clima de tensão, que já se tornou comum na cidade, cresceu ainda mais depois da divulgação, nesta semana, do projeto do Incra, encampado pelo Governo do Estado, de transferir 200 famílias sem-terra acampadas em quatro propriedades de Querência do Norte para um assentamento provisório em Santa Cruz do Monte Castelo.
A desocupação planejada dos sem-terra desperta dúvidas nas lideranças do MST. A intenção é adquirir uma fazenda para montar um acampamento provisório, onde as famílias aguardariam a desapropriação e o assentamento em áreas definitivas. A transferência permitiria o cumprimento das sentenças de reintegração de posse emitidas para os proprietários das qautro áreas ocupadas.
Desde o início do ano, quando a regional da União Democrática Ruralista (UDR) foi recriada em Paranavaí, cresceram as pressões dos proprietários para o cumprimento dos mandados de reintegração de posse.
Nos últimos 90 dias, passaram pela delegacia da cidade dois assistentes de segurança. No mês passado, o próprio secretário de Segurança, Candido Manoel Martins de Oliveira, designou o delegado de carreira Mário Sérgio Bradock para cuidar da segurança em Querência do Norte. ‘‘Essa cidade estava em completa desordem civil, e eu vim aqui para colocar ordem’’, diz Bradock à Folha.
Como Querência não é sede de Comarca, não tinha delegado. O delegado conta que ‘‘por causa do clima de desobediência implantado pelos sem-terra na cidade’’, Oliveira pediu a nomeação de um policial com experiência.
Um dos primeiros alvos de Bradock foi o vereador de Querência Dalto Vargas (PT). O delegado convocou Vargas para saber se ele estava mesmo espalhando que os sem-terra invadiriam fazendas com uma viatura da Patrulha Rural da Polícia Militar.
Convocado duas vezes para depor, o vereador não compareceu. Bradock achou que era demais. Pediu e obteve um mandado de prisão provisória do vereador. O mandado saiu da caneta da juíza de Loanda, Elizabeth Khater, responsável pela concessão de inúmeras reintegrações de posse na região.
Vargas compareceu para depor na manhã da segunda-feira da semana passada. Não veio sozinho. Atrás dele, uma manifestação de sem-terra reuniu cerca de 800 pessoas, de assentamentos e acampamentos da zona rural de Querência.
‘‘Eles queriam fechar o comércio, os bancos e parar a cidade, como sempre fizeram, mas eu fui duro com eles e tudo funcionou normalmente’’, defende Bradock. Os sem-terra cercaram a delegacia para acompanhar a apresentação do vereador.
‘‘Eu não estou aqui para tirar ninguém de lugar nenhum, mas para colocar ordem na cidade, e se o MST quiser fazer três passeatas por dia que faça, desde que respeitem quem está trabalhando.’’ Bradock ouviu Vargas, que negou a acusação. O delegado preferiu esquecer o mandado de prisão e liberou o vereador.
O trabalho de Bradock chamou a atenção da delegada de Presidente Prudente (SP), Ieda Maria Casoli de Aguiar. Na semana passada, ela quis saber como o delegado conseguiu a proeza ed convocar um líder do MST.
Bradock diz que daqui para a frente, em caso de convocação, tudo vai ser diferente. Ele conta que fechou um acordo com os líderes do MST para que o movimento auxilie a polícia quando algum sem-terra for convocado para depor. ‘‘Faltava alguém aqui para peitar esse pessoal’’, confessa Bradock.
Um dos líderes do MST em Querência do Norte, Delfino Becker, disse à Folha que não há ‘‘acordo’’ com a polícia. ‘‘Temos somente um entendimento para apresentar as pessoas intimadas para depor.’’ Becker disse que os sem-terra não tem nada contra o delegado. Porém, para ele, Bradock é ‘‘desequilibrado’’.

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