Sid Sauer
De Campo Mourão
Dezembro de 1992. Por causa de uma conta de água, o bóia-fria Onofre Sebastião de Oliveira se desentende com o auxiliar de serviços gerais Pedro de Souza, que era casado com uma enteada dele. Os dois brigam e Onofre acerta algumas facadas em Souza. A vítima ainda é levada com vida para um hospital, mas não resiste aos ferimentos e morre. Esse foi o último assassinato registrado em Boa Esperança (56 km a oeste de Campo Mourão).
‘‘Vivemos num clima de muita calma’’, diz o delegado da cidade João Joaquim Barbosa, 65 anos, que está no cargo desde 1992. Ele era suplente quando o então delegado Deraldino José Bispo matou um caminhoneiro devido a uma briga política, já há cerca de nove anos. Foi o penúltimo homicídio da cidade e também levou Barbosa a largar a profissão de corretor de imóveis para cuidar da delegacia.
O delegado se orgulha de ter posto ‘‘ordem na casa’’. ‘‘Desde que assumi, se aconteceram cinco roubos na cidade foram muito’’, conta. Barbosa diz que conseguiu o respeito da população quando prendeu, logo que assumiu a delegacia, os responsáveis por uma onda de arrombamentos. ‘‘Demos sorte’’, admite. Para o delegado, parte do sossego de Boa Esperança se deve à inexistência de bóias-frias. ‘‘Onde não tem bóia-fria, não tem bebedeira’’, afirma, para justificar o seu ponto de vista.
Se dependesse de infra-estrutura em segurança, no entanto, Boa Esperança tinha tudo para ser uma cidade violenta. A delegacia está sem viaturas há quatro anos. A última era um Chevette. O veículo recebeu baixa por falta de condições de uso e nunca mais foi substituído. Desde então, Barbosa tem que se virar com um Fusca 72, que foi recuperado de um assalto e entregue ao delegado no sistema de ‘‘fiel depositário’’.
Na semana passada o Fusca estava na oficina. Nessas horas, o delegado tem que usar o seu próprio Del Rey 89. Combustível? A prefeitura fornece 30 litros por mês. ‘‘O resto eu completo do bolso’’, diz Barbosa. A manunteção da delegacia também é garantida pela prefeitura, que paga os salários de um escrivão, de um investigador e da zeladora. Desde o início do ano, o Estado repassou apenas R$ 30,00 do fundo rotativo.
A segurança da cidade é reforçada pela Polícia Militar, que tem um efetivo de seis homens e uma viatura Ipanema. Dos seis PMs, apenas o comandante, sargento Jair Padilha, mora em Boa Esperança. Os outros cinco residem em cidades vizinhas. Devido ao sistema de escala, nunca mais do que dois policiais militares estão em ação na cidade. Os policiais, no entanto, não parecem reclamar do ‘‘excesso’’ de trabalho.
Na delegacia, o escrivão Sérgio Farias, 30 anos, mostra o livro de ocorrências praticamente vazio. Em média, são abertos dois inquéritos por mês. Este ano, foram 12. Os últimos dois inquéritos são do mês passado, em consequência da apreensão de menor (leia texto nesta página). A última prisão aconteceu em junho, quando um homem foi flagrado, sem porte de arma, com uma garrucha calibre 22. Ele ficou um dia preso e saiu após pagar fiança de R$ 60,00.
Antes disso, prisão só em abril, quando um outro homem desacatou um policial militar. ‘‘Inquéritos são poucos, mas ocorrências corriqueiras acontecem sempre’’, frisa Farias. Sempre? O próprio escrivão calcula que não são registradas mais do que seis queixas por mês. A maioria é por problemas banais: bebedeira, briga de marido e mulher e desentendimentos entre vizinhos. ‘‘Somos muito procurados por causa de fofocas’’, conta Farias.
O último caso que vem movimentando a delegacia é a história da mulher que abandonou o marido para morar numa casa cedida pelo suposto amante, que também é casado. Ameaçada pelo marido, que não quer acabar com o casamento, a mulher procurou a polícia. É nesse tipo de caso que entra em ação o lado ‘‘conselheiro’’ do delegado João Joaquim Barbosa. ‘‘Ele aconselha as pessoas a não cometerem besteiras e muito crime acaba sendo evitado’’, ressalta o escrivão.
Na base dos conselhos e conversando com todos que se envolvem em brigas banais, Barbosa diz que nunca precisou usar o revólver nesses sete anos que atua como delegado. ‘‘Também já evitei muita separação de casal’’. Como a fama de conselheiro já correu a pequena cidade, muitas pessoas procuram o delegado para saber o que fazer diante de desentendimentos com vizinhos ou mesmo brigas de bar.
‘‘Na maioria dos casos a conversa do seo João resolve o problema sem que seja preciso registrar queixa’’, diz Farias. Graças a isso, o investigador Claudinei de Souza, 29 anos, garante que tem um trabalho muito sossegado. Ele está na delegacia de Boa Esperança há pouco mais de um ano e meio e conta que não há como comparar o atual trabalho com o anterior, quando exercia a função em Cascavel. ‘‘Aqui a cadeia vive vazia’’, destaca.Delegado, de 65 anos, usa um Fusca 72 como viatura e dá conselhos aos moradores para evitar crimes
Marcos NegriniCADEIA VAZIAMaioria dos casos policiais registrados em Boa Esperança se resumem a brigas entre marido e mulher, ou entre vizinhos, e bebedeirasMarcos NegriniPrefeito Cláudio Gotardo quer atrair aposentados

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