Cidade já tem clínica de sono e médico alerta sobre apnéia
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segunda-feira, 21 de julho de 1997
Adriana De Cunto Londrina 
Paulo WolfgangHora de dormirPaciente faz exame de polissonografia: maneira de diagnosticar problemas de falta de ar noturna Londrina acaba de ganhar sua primeira clínica para tratar distúrbios do sono. É o Laboratório do Sono.
Os problemas na hora de dormir afetam mais gente do que pode parecer. Uma em cada dez pessoas no mundo sofre da síndrome da apnéia do sono, falta de ar provocada pelo bloqueio das vias respiratórias. A doença, pouco conhecida e compreendida, pode até matar se não for devidamente tratada. Segundo o médico pneumologista Igor Nery, 37 anos, especialista em distúrbios de sono, nos Estados Unidos, 95% das pessoas que têm esta doença não são diagnosticadas e não recebem tratamento adequado. Os dados são da Organização Mundial da Saúde (OMS); o médico lembra que nos Estados Unidos os estudos neste campo estão mais adiantados. No Brasil, ainda não há estatísticas sobre o assunto.
Igo Nery foi o primeiro médico a instalar no Paraná uma clínica para diagnosticar e tratar problemas do sono. O Laboratório do Sono foi criado primeiro no município de Umuarama (Noroeste do Estado) e agora chegou também a Londrina. Segundo o médico, é a terceira clínica no Paraná - existe outra em Curitiba.
Ele explica que em seu laboratório são tratados especificamente os distúrbios de sono provocados por causas respiratórias. Ele lembra que há distúrbios acarretados por causas psiquiátricas ou neurológicas. Mas 80% das doenças do sono têm causas respiratórias, ressalta. E entre elas, a mais grave e frequente é a apnéia do sono.
O ronco é o primeiro sintoma que deve ser observado no diagnóstico da apnéia, comenta o médico. Além disso, a grande sonolência durante o dia também é um sinal importante da doença. Igor Nery explica que, por vários motivos anatômicos, durante o sono, ocorre o estreitamento da via área superior. Esse estreitamento faz com que o fluxo se torne turbulento, gerando a vibração das estruturas flácidas, como a língua e o céu da boca, gerando então o ressonar, que é o ronco, diz.
Igor Nery comenta que o ronco pode ser inofensivo. Mas, quando o estreitamento do calibre da via respiratória ultrapassa 80%, pode ser sinal de doença grave. A interrupção no processo da respiração pode gerar a hiponéia do sono, que pode ser traduzida como baixa respiração, ou a apnéia, que é a interrupção do fluxo de ar por tempo superior a 10 segundos. A ciência acredita que o roncador inocente de hoje é o apnéico de amanhã, alerta.
O especialista comenta que geralmente a pessoa que ronca não se dá conta da gravidade do problema e chega ao consultório médico por insistência da esposa ou do marido. A apnéia do sono é detectada através de um exame de polissonografia. O paciente vai passar a noite na clínica, dormindo conectado a um aparelho que mostrará ao médico como foi a noite de sono.
A polissonografia vai registrar, entre outras coisas, quantas apnéias o paciente teve pelo período de uma hora. Dependendo do índice, ela é identificada em grau leve, moderada ou alta. O exame também vai dar informações sobre a repercussão destas paradas respiratórias para o coração do paciente.
Após diagnosticada a apnéia, o paciente vai passar a usar, todas as noites, um aparelho chamado CPAT (Continuous Positive Airway Pressure). Ele vai produzir uma pressão contínua nas vias aereas, levando ar através do nariz do paciente e impedindo a obstrução das vias respiratórias durante o sono.
Segundo Igor Nery, trata-se do mais moderno tratamento para a apnéia do sono, dispensando medicamentos e, consequentemente, qualquer tipo de efeito colateral. O único problema é o preço do aparelho - R$ 1.300,00. Semelhante a uma máscara de oxigênio, ele terá que ser usado para o resto da vida. A regulagem do fluxo de ar emitido pelo CPAT depende de paciente e será regulado pelo médico ou técnico numa segunda noite de sono no consultório.
A doença atinge principalmente os homens entre 40 e 65 anos. Dados da OMS mostram que, de cada 10 apnéicos, oito são homens. E a obesidade, lembra o médico, é fator determinante, principalmente no sexo masculino. Enquanto a mulher deposita gordura mais no quadril e coxas, o homem deposita na barriga e no pescoço, avisa. A obesidade está para a apnéia do sono assim como o sal para o hipertenso.
Para os apnéicos, Igor Nery avisa: álcool está proibido quatro horas antes de dormir, assim como o uso de calmantes, já que estes elementos podem impedir que o cérebro reaja para despertar a pessoa que esteja passando por um crise de apnéia. Ele comenta que, na América do Norte, há Leis específicas para que motoristas de ônibus e pilotos de avião que sofram de apnéia do sono estejam em tratamento para poder exercer a profissão. A preocupação se deve ao estado de grande sonolência que os apnéicos apresentam durante o dia, chegando a cochilar no trabalho. Isso acontece porque eles acabam dormindo muito mal à noite.
Outros distúrbios são tratados no consultório instalado ontem em Londrina, como a fragmentação do sono por dificuldades respiratórias, comum entre as pessoas que sofrem de renite alérgica. Igor Nery se interessou em estudar os distúrbios do sono em 1990. Ele explica que a especialidade não faz parte do currículo de muitas das escolas de Medicina, mas destaca os laboratórios criados na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na Escola Paulista de Medicina.
Serviço - O Laboratório do Sono começou a funcionar ontem, na rua Souza Naves, 626, sala 26, fone 324-6559. Igor Nery esclarece que, por enquanto, a clínica só vai atender pacientes particulares.


