Cidade já esteve na rota da febre amarela
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Widson Schwartz<br> Especial para a Folha 
O primeiro prefeito de Londrina, engenheiro Joaquim Vicente de Castro, assumiu o cargo em 10 de dezembro de 1934 e teve duas dificuldades para começar a administrar o município recém-instalado: a intransigência de mister Arthur Thomas, gerente-geral da empresa fundadora da cidade, e a febre amarela silvestre. ''Entrei aqui no sertão e apanhei a febre, que chamavam 'febre do bugio', porque antes o mosquito contaminava os macacos'', recordaria Castro, 40 anos depois, em depoimento ao Centro de Ciências Humanas da UEL. Hospedado no Hotel Luxemburgo, o prefeito recebeu assistência médica ao lado ''de um pretinho'', também contaminado.
''Não era muito grave'', disse Joaquim. Mas, um ano depois do seu tratamento, começou um surto que ia matar pelo menos 32 pessoas no município e atrapalhar a colonização. Estava previsto. O jornalista contemporâneo Humberto Puiggari Coutinho registrou que um médico da Fundação Rockefeller estivera em Londrina prevenindo o diretor-técnico da Companhia de Terras Norte do Paraná, Willie Davids. Em um mapa, o médico traçou a rota da febre amarela silvestre que, procedente de uma zona andina, atravessava o Amazonas e Mato Grosso e chegava ao Norte do Paraná. ''Este, doutor Davids, será o itinerário. A peste possivelmente chegará aqui, invadindo a gleba de colonização da Companhia''.
Segundo Coutinho, no livro Londrina 25 Anos de sua História, ''a bomba explodiu'' em dezembro de 1935. Percebendo que o cadáver de um suíço em Rolândia estava ''muito amarelo'', o médico local extraiu-lhe o fígado, que a Companhia de Terras remeteu a um laboratório no Rio de Janeiro, que confirmou febre amarela silvestre. Arthur Thomas, gerente-geral da Companhia de Terras, e Willie Davids, que já assumira o cargo de prefeito, temendo o alastramento, pediram providências ao diretor de Saúde Pública no Estado.
Mas demoraram um pouco a pedir, deduz-se do relato de Coutinho: ''Aí, já se aproximava o carnaval''. E receberam um telegrama da Diretoria de Sa© úde Pública: ''Depois do carnaval seguirão três médicos''. Não dava para esperar. Atendendo a mister Thomas, que foi a São Paulo, a Fundação Rockfeller enviou a Londrina uma equipe chefiada pelo médico J. Ker. ''Armou-se'' um laboratório para os exames e o preparo de vacinas; auxiliares entravam na mata, vistoriavam ranchos e conduziam os moradores para serem vacinados, ''mesmo à força''. Ao mesmo tempo, outros auxiliares caçavam macacos, que, infectados pelo mosquito, transmitiam o vírus. O surto foi vencido em março de 1936, após matar 32 pessoas no município, a maioria nos distritos e patrimônios, conforme o relato de Puiggari Coutinho. Na cidade de Londrina foram sepultados quatro: José Lino Pontes (48 anos, brasileiro), Afonso Maltas (37 anos, português), Adrien Fayolles (20 anos, francês), Martin Henriques (23 anos, brasileiro).


