Mário CesarSem alternativaSem-teto se aquecem em fogueira no terreno invadido no conjunto Vivi Xavier: ‘Não queremos nada de graça; queremos pagar pelo terreno’Ontem, durante todo o dia, famílias inteiras trabalharam embaixo de chuva para limpar, demarcar lotes e montar barracos de tábuas, galhos de árvores e lonas plásticas, no terreno invadido por 30 famílias anteontem à noite. A área, que servia como depósito de entulho, fica localizada no fundo do conjunto habitacional Vivi Xaxier (zona norte), entre as ruas David Nasser e Carmem Miranda.
No final da tarde de ontem, já havia 52 famílias na área invadida. Todas da própria região e que estão arriscando tudo para fugir do pagamento de aluguel.
Os invasores alegam que o terreno, muito inclinado e cheio de pedras, é da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab), está sem utilidade desde a inauguração do Vivi Xavier - há 17 anos - e só serve como depósito de lixo e animais mortos.
Segundo o diretor administrativo da Cohab, Fernando Barros, o terreno não pertence à companhia e é, na verdade, área de preservação do fundo de vale do córrego Pirapó.
De acordo com dados da Cohab, esta é a 35ª ocupação irregular existente hoje em Londrina. Dessas, 18 estão em áreas de fundo de vale. Do total de invasões - onde moram em precárias condições de higiene cerca de 700 famílias de sem-teto -, dez estão na zona norte, 11 na zona sul, nove na zona leste e cinco na zona oeste.
Ontem, o dia foi de trabalho duro na área ocupada do Vivi Xavier. Crianças, jovens, mulheres e homens carpindo grama, carregando madeira, pregando tábuas e estendendo lonas.
Os lotes foram demarcados - com tamanho entre 80 e 120 metros quadrados cada - e cercados com fios de barbante e cordas. O pedreiro Genivaldo Rodrigues dos Santos, 25 anos, casado e com um filho, está animado: ‘‘Até que enfim, vou ter o meu cantinho. Com o tempo, construo uma casinha melhor. O que não aguento mais é pagar um aluguel de R$ 250,00 com o salário de R$ 300,00 por mês.’’
O desempregado Amarildo Sampaio, morador do Vivi Xavier desde 1985, também foi para a área invadida fugindo do aluguel. ‘‘Estou doente de bronquite, não tenho dinheiro nem para comprar remédio, quanto mais para pagar aluguel. Não queremos brigar com ninguém, estamos ocupando pacificamente esta área que está aqui abandonada há muitos anos’’, explica Sampaio.
‘‘Estamos é fazendo um favor para os moradores do bairro vizinho e para a Cidade: estamos limpando o terreno e acabando com a sujeira que existia aqui. E não queremos nada de graça. A Cohab pode parcelar, que vamos pagar mensalmente o valor do nosso terreno.’’
As famílias de sem-teto reclamaram que nenhum representante da Cohab ou da Prefeitura apareceu ontem para negociar com eles. À noite, eles participariam de uma reunião na Associação de Moradores do Vivi Xavier para pedir apoio dos vizinhos na regularização do assentamento e solicitar a doação de materiais que auxiliem na construção dos barracos.
O casal Augustinho e Lorena Moreno do Carmo passaram o dia demarcando e cuidando de um lote. Eles residem no Vivi Xavier há 16 anos, e pretendem construir uma casinha para dois filhos casados - um desempregado e uma faxineira - morarem com seus quatro netos.
‘‘A vida está muito dura. Nossa casa popular é pequena’’, comenta Augustinho do Carmo. ‘‘Os filhos vão crescendo, vão se casando, têm os filhos deles e precisam de uma casa só deles’’, ele justifica.

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