Milton Dória




Fora de pautaPouco do que aconteceu na Fazenda Cordilheira no dia 6 interessa aos moradores da cidade. O assunto é comentado na roda da praça principal com o mesmo destaque dado a fatos políticos ou esportivos. Único motivo de preocupação foi um boato de que os sem-terra invadiriam a praça.


Um sentimento de pouco caso, quase desdém, paira sobre parte dos 3.699 habitantes (Censo de 1996) da pequena localidade de Jundiaí do Sul (64 quilômetros ao sul de Jacarezinho), apesar da pacata cidade ter vivido o seu momento de destaque no início do mês. O confronto entre um grupo de sem-terra, dois fazendeiros e cinco seguranças na tarde do dia 6 criou um capítulo de violência que rendeu notícias em páginas de jornais do Brasil e do exterior.
A imagem do fazendeiro Ney Mário Minardi, 65 anos, amarrado a uma carroça e com o rosto coberto de sangue, chocou leitores e telespectadores e fez muito mais. Levou o nome de Jundiaí do Sul para além de fronteiras que normalmente a cidade não atravessaria.
Era um sábado, dia de sol forte, quando tudo aconteceu. Uma fazenda invadida, ódio de um lado, raiva de outro e um tiro no meio da discussão. Corre-corre, pedradas e pancadaria, ao som de gritos desesperados, mobilizaram crianças, mulheres e homens. Um lado defendia a propriedade, outro tomava-a à sombra da lei.
O resultado da batalha foi a vitória da maioria, constituída por 62 famílias de sem-terra - segundo líderes do grupo -, contra dois fazendeiros e cinco seguranças. A humilhação veio em seguida: amarrados, os integrantes do grupo menor, mantidos como reféns, foram fotografados e filmados.
A alguns quilômetros de distância, no centro da cidade, nada do que acontecia no campo despertava na maioria da população mais curiosidade do que o normal. O grupo de idosos e pequenos comerciantes que frequenta diariamente um canto da praça principal para conversar sobre pescaria, política, economia e programação de tevê, não tinha motivos para dar ênfase ao conflito no campo. O assunto era comentado, mas como se fosse sobre futebol.
A única preocupação, dias antes do confronto de 6 de setembro, foi causada por um boato. ‘‘Só criou um certo pavor quando chegou um boato que os sem-terra iam invadir a praça’’, testemunhou o comerciante João Carreira, duas semanas depois da briga entre sem-terra, fazendeiros e seguranças.
Um parecer do Ministério Público para respaldar o indiciamento das pessoas diretamente envolvidos no conflito, fala em comoção social. Janserlei Aparecido da Silva, 22 anos, funcionário de um supermercado, dá outra versão. ‘‘O pessoal aqui na cidade comentou bastante sobre o caso dos sem-terra. Mas a cidade não saiu da normalidade’’.
O comerciário admite, entretanto, que parte do clima de tranquilidade que reinou na zona urbana de Jundiaí do Sul foi devido ao forte esquema de policiamento. ‘‘Mas aqui é normalmente tranquilo. Aqui se pode dormir no meio da rua e no outro dia acordar com o dinheiro guardado no bolso’’. Segundo Janserlei, O batalhão da Polícia Militar de Jacarezinho esteve em peso, durante o conflito, em Jundiaí do Sul.
O proprietário do supermercado, Rodrigo Rosa Gomes, 21 anos, tem a mesma avaliação de seu funcionário sobre o episódio do dia 6. ‘‘Não deixou de dar uma mexida na cidade. Mas não chegou a criar medo’’. Sobre o posicionamento dos moradores da zona urbana em relação ao confronto entre sem-terra e fazendeiros, Janserlei Aparecido da Silva acredita que o povo de Jundiaí do Sul ficou no meio-a-meio. ‘‘O povo achou que deveria ser pacífico por parte dos sem-terra. A violência deixou o povo meio revoltado’’.
Mas é no canto da praça principal, junto ao simpático grupo de senhores que se descontraem à sombra das árvores, que o assunto ganha tom de ironia. ‘‘Aqui não tem o que tirar’’, brinca um aposentado, ao ser questionado sobre o receio da cidade ser invadida pelos trabalhadores rurais sem-terra.
É da mesma forma irônico que ele se nega a se identificar. ‘‘A gente tem que ficar de bem com os fazendeiros, se não eles não deixam pescar nas propriedades deles’’. O grupo, de cerca de oito pessoas, é quase unânime. ‘‘Invasão, de forma pacífica ou não, eu sou contra. Agora, reforma agrária é outea coisa’’, diz o comerciantes João Carreira.
‘‘Invasão não, reforma agrária sim’’, emenda Joaquim Aparecido de Oliveira, aposentado. ‘‘Você tem uma propriedade que é improdutiva, ai tem que ver como fazer para funcionar. Mas sem violência, porque passou o tempo de resolver esse tipo de assunto desta forma’’, acrescenta o aposentado.
O grupo também parece sintonizado quando o assunto é a credibilidade de alguns grupos de sem-terra. Joaquim Aparecido de Oliveira condena os que recebem lotes em assentamentos e depois negociam sua parte de terra, para fazer das invasões uma espécia de negócio lucrativo. ‘‘Normalmente quando faz o assentamento, tem gente que negocia a terra e vai para outra cidade, participar de outra invasão’’.

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