Cidade, história e representação
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quinta-feira, 31 de maio de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

"Aqui é ponto central do traçado urbano de Londrina", aponta uma placa no Centro de Londrina. Por ela passa todo tipo de pessoa e poucos, ou ninguém, leem. Londrina possui 63 monumentos distribuídos em vários locais para contar sua história. Placas, bustos, painéis e esculturas simbolizam a cidade e registram a memória. Preservar é preciso, mas há os que resistem ao abandono.
No site do Siglon (Sistema de Informação Geográfica de Londrina), o registro de instalação simbólica mais antigo é o da Estátua Deus Mercúrio. Localizada em frente ao Palácio do Comércio, sua história inicia-se em 1942, quando a Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina) inaugurava sua primeira sede. Sobre dois andares, a representação mitológica se destacava.
Um deus do comércio em granito e bronze apontava o dedo para o céu e observava a cidade do alto. Com a demolição do prédio, em 1973, foi levado para a UEL (Universidade Estadual de Londrina) e só retornou para o novo edifício em 1987. Desde então, mais discretamente, vê e é visto pela população londrinense que passa por aquele pedaço da rua Minas Gerais.
Neste meio tempo, algumas publicações citam que a estátua foi cotada a ser derretida para bala de canhão quando o Brasil entrou na Segunda Guerra. O esforço e diplomacia do presidente da associação, David Dêquech, teria evitado que ela fosse levada de Londrina.
No ano seguinte à instalação de Mercúrio, um novo monumento marcou a cidade. O mastro da praça Marechal Floriano Peixoto representa o altar da pátria. "Foi no dia 7 de setembro de 1943. Eu tinha 9 anos quando cortei a fita no dia da inauguração. Tinha muita gente, era um evento, uma coisa importante na época", recorda Négila Hauly, 83. O mastro é o ícone que deu a identidade ao local, popularmente chamado de Praça da Bandeira.
Das várias marcas, um projeto de Domingos Pellegrini ressaltou as construções históricas, que, embora não tenham sido erguidas por motivos exclusivamente simbólicos, contribuem para perpetuar a memória de Londrina. O bronze aplicado em 14 pontos afirma que "Aqui Tem História". Os inscritos comemoram os 61 anos da cidade e dão a ideia da relevância do seu local de instalação.
A frase do início deste texto faz parte de uma delas, descrevendo a Catedral em suas três fases. "Neste local instalou-se a Igreja Matriz, em 1934, inicialmente de madeira. Uma nova igreja começou a ser erguida em 1938, inaugurando-se as torres dez anos depois. O atual edifício da Catedral é de 1972", informa a placa. Prédios da Biblioteca Municipal, Hospital Santa Casa de Londrina e Teatro Ouro Verde estão entre os locais que receberam a homenagem.
Os monumentos representam, possuem valor, simbolizam, mas nem todos entendem sua linguagem. Sem políticas de valorização da cidade, a população perde a identidade. "Isso é um processo mais complexo do que falta de divulgação. A gente vem estimulando para que as pessoas visitem mais esses espaços", afirma o secretário Municipal de Cultura, Caio Julio Cesaro. Segundo ele, há uma preocupação em desenvolver roteiros turísticos junto às secretarias competentes e promover visitas monitoradas.

HOMEM COMPLETO
A arte de Henrique de Aragão, O Passageiro, é uma das obras mais imponentes. Produzida em concreto e aço inox, seus 15 metros de altura chamam atenção dos que passam sem a pressa habitual de quem faz da rotatória entre as avenidas Dez de Dezembro e Leste-Oeste seu caminho diário.
O Passageiro é uma homenagem da Viação Garcia ao 55º aniversário da cidade e também da empresa. Representa o Homem Completo por meio de dois personagens que simbolizam os viajantes na busca pela integridade interior. É a unidade entre Eros (desejo) e Tanatus (morte) colocados em torno de uma esfera e a semente da continuidade ao centro.
Conhecer e identificar-se. Cada espaço possui sua memória entrelaçada à história de seus habitantes. "Os monumentos de todas as cidades são referências de memória, história, de valor, são referenciais até do desenvolvimento. Para Londrina, que é uma cidade que está com um pouco mais de 80 anos, é importante que a gente passe a olhar para esses espaços e desenvolver políticas públicas de valorização", destaca.
Quantos símbolos os moradores reconhecem?

Perceber a cidade e notar que em diversas formas há uma instalação para homenagear, comemorar, simbolizar. Quantos monumentos os londrinenses reconhecem? História e expressão da identidade. Espalhados nas paisagens, há instalações que gritam por atenção e por socorro.
Etelvina Cardoso Coelho, 53, passa todos os dias pela rua Senador Souza Naves. No caminho, um monumento nem chama mais a atenção. "Eu trabalho aqui perto, sei que se chama monumento à Bíblia. O significado todo eu nunca me atentei a perguntar. Não conheço a história", revela.
Quatro bases dispostas em cruz, cada uma contém texto dos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João e uma imagem das tábuas da lei com os Dez Mandamentos. No centro, a formação de um obelisco apontando para o céu. A implantação é de 1977, mas foi restaurado em 1994 pelas mãos do artista plástico Luis Trevisan.
Apesar de não conhecer a história, Coelho reconhece a importância. "Londrina tem muita coisa que se perde, muita história se perdeu, como a antiga Catedral da cidade. Os mais antigos dão valor, mas os mais jovens não", opina.

NISHINOMIYA E MODENA
Há cinco monumentos na Praça Nishinomiya (zona leste). Entre eles, a Lanterna Kasugatoro (do templo Kasuga), doada como símbolo da amizade entre as cidades Nishinomiya, do Japão, e Londrina. A instalação foi realizada em 1989, mas a lanterna é um exemplar original do Japão e possui mais de 400 anos.
"Moro aqui na região há 45 anos. Lembro que o prefeito foi no Japão, fez amizade e eles trouxeram para cá", recorda Benedito Lessa Nobre, 78. "Sei da história porque fui ouvindo. É importante contar a história, como a rodoviária, estação de trem. Eu andei muito de trem, é bom para os jovens conhecerem. Tem muita história ali", afirma o aposentado.
Magno José da Silva, 82, lembra quando a Lanterna foi colocada na praça. "Veio muita gente na celebração, gente do Japão. Até hoje fazem festas em comemoração aqui", relata o aposentado que frequenta a praça há mais de 30 anos.
O local é bem conservado e sempre movimentada. As pessoas utilizam o espaço para caminhar, passear, conversar. Já em outro ponto, na Praça de Modena (zona sul) a história é outra. Com traços de abandono, a população nem reconhece a instalação. "Eu não sabia que era monumento. Muito feio, mal cuidado, está abandonado", reclama Nancy Rodrigues, 51.
O local é símbolo da irmandade da cidade de Modena, na Itália, e Londrina. A instalação em rocha basáltica bruta é de 1996 e perdeu sua placa em bronze que representava a coirmandade entre as cidades. Segundo a diarista, o local traz pouco significado e quase não vê pessoas frequentando. "Para mim não simboliza nada, é um monte de tijolo apodrecendo", destaca.
Ocupar faz parte da preservação
Ocupar a cidade faz parte da preservação de sua história. Quanto mais a população visita esses locais, menores as chances de abandono. No entanto, é necessário que alguns espaços estejam adequados para receber seus visitantes.
"Nós fizemos a reorganização de horários de funcionamento do Museu, por exemplo. Isso se encaixa na questão dos roteiros, você compõe material de apoio que vai destacar a história, o significado, a relevância desses espaços", afirma o secretário municipal de Cultura, Caio Julio Cesaro.
Nem todos recebem os mesmos cuidados. A Praça de Modena, localizada na zona sul, nem a placa de inscrição possui mais. "A conservação fica vinculada em determinadas secretarias de acordo com os usos, cabe àqueles responsáveis", informa o secretário.
Cesaro destaca que a prefeitura vem passando ao longo de vários anos por um contingenciamento dos recursos e que o desafio é retomar a interferência nestes ambientes. Cita o conjunto de ações na comemoração dos 65 anos da Concha Acústica como exemplo e que é preciso contar com a conscientização da população. "O local era constantemente pichado. As coisas têm que vir juntas e a comunidade tem que tomar conta desses espaços, que passe a cuidar e estar ali no dia a dia", indica.
Segundo o secretário, a manutenção é feita aos poucos, com os servidores e orçamento que a pasta possui, tentando preservar a história conforme a possibilidade. "A história de um povo é também marcada pelos símbolos que os identificam. Os monumentos são referências da cidade e do povo dessa cidade. Londrina tem esses marcos, como a rodoviária, O Viajante, a ferroviária. É importante preservar e passar para as gerações para perceberem os valores."


