''Cidade dos Contrastes''
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2002
Erika Wandembruck Equipe da Folha 
Cidade de primeiro mundo. Capital Européia. Cidade de todos os povos. Por meio desses slogans Curitiba cria a imagem de cidade desenvolvida. Uma capital onde existe democracia racial.
Mas basta se distanciar da Curitiba dos cartões postais para se deparar com outra realidade. Uma Curitiba sem planejamento, esquecida e, sobretudo, escondida. Nesta Curitiba, os olhos não são claros. A pele não é branca. Os cabelos não são lisos. A cor do chão se confunde com a cor da gente que compõe esse cenário.
Essa gente não é celebrada em monumentos. Tão pouco é valorizada como integrante da sociedade curitibana. Essa gente não possui características ucranianas, alemãs ou japonesas. É descendente dos povos africanos.
Marcado pela tonalidade da pele, o negro em Curitiba é condenado a carregar toda a carga simbólica da sua cor. Escuro, sombrio, tenebroso, horrível, inimigo, execrável. É assim que o dicionário Aurélio define o vocábulo negro. Esses e outros adjetivos levam a raça negra a ser relacionada ao atraso, à inferioridade.
Incompatível com a imagem que os governantes criaram de Curitiba, o negro não obteve espaço na Capital Européia. Ele passou a ser invisível.
Encontrar o negro entre a multidão que percorre a Rua XV, entre os universitários ou frequentadores dos parques é uma missão quase impossível. A situação econômica dessa raça a instalou bem distante dos locais focalizados pelos flashes e câmeras de tevê. Para achá-lo é preciso fugir da rota turística determinada pelos autores do mito de Cidade Modelo.
É preciso se deslocar até lugares pouco conhecidos. Onde o negro é maioria. Locais com nomes nada imponentes como Xapinhal, Fazendinha, Sítio Cercado. Ao contrário de Champagnat, Batel, Shaffer, nomes que identificam bairros visíveis na sociedade curitibana.
A propaganda oficial de Curitiba esconde a presença do negro na cidade. Exalta os descendentes de europeus e asiáticos como sendo os legítimos cidadãos curitibanos. Essa propaganda é conduzida pela mesmas mãos que comandam a política da cidade. Mãos que investem em monumentos, praças e parques, tornando verdadeiras as propagandas sobre Curitiba. Mãos que deixam de financiar obras públicas na cidade que a mídia não vê.
É assim renegando seus próprios filhos que Curitiba se mantém soberana. Omitindo o negro o título de Cidade Sorriso perde sua força, pois essa gente transforma sua dores em arte, dança, música e religiosidade.
É Curitiba, você não é a Cidade de Primeiro Mundo, a Capital Européia, a Cidade de Todos os Povos. Você é a Cidade dos Contrastes.


